Um conto xeneize: a mística volta à Bombonera e o Boca conquista o título argentino na última rodada.
Riquelme, Carlos Tevez e Maradona estavam no estádio boquense na noite em que tudo voltou a ser como antes para os xeneizes.
Grande parte da história moderna do Boca Juniors estava representada na noite de sábado(7), na Bombonera.
Em campo, o contestado Carlos Tevez, ídolo de longa data, até pouco tempo vivendo um ócio remunerado, que reencontrou o rumo sob o comando de Miguel Angel Russo.
Na casamata adversária, Maradona, hoje técnico do Gimnasia, que leva o Boca estampado na pele e pregado no coração.
E, nos camarotes, sempre impávido, Juan Román Riquelme, hoje vice-presidente de futebol, o homem que ainda fez tremer de saudade a espinha do bairro de La Boca.
A presença de Riquelme no estádio, diante das câmeras, significa muito mais do que a imagem de alguém que levou o clube a um predomínio absoluto na América.
No fim do ano passado, as eleições tiraram do comando da instituição de La Ribera o presidente Daniel Angelici e o grupo político que, na percepção de grande parte da torcida, se distanciava da identidade popular (e vencedora) que marca o Boca Juniors, tentando, entre outras coisas, questionar a existência da Bombonera, sabidamente o epicentro da paixão xeneize.
A chegada de uma nova gestão, liderada por Jorge Amor Ameal e abraçada por Riquelme, é vista como um forma de o Boca voltar a ser o Boca que sua torcida reconhece.
Nos últimos tempos, a identidade xeneize fora perdida também dentro da cancha.
Acostumado a vergar o tradicional rival em momentos cruciais, o Boca Juniors se viu surrado pelo River Plate de todas as formas e em vários lugares do mundo.
O que faltava para lustrar os dourados sapatos de Marcelo Gallardo era justamente o título do campeonato argentino, troféu que faltava entre os muitos erguidos desde 2014, quando El Muñeco chegou ao clube.
E o River marchava solene para a taça, até que Miguel Angel Russo assumiu o Boca Juniors e enfileirou uma série de cinco vitórias que fizeram a vantagem millonaria, na última rodada, ficar em apenas um ponto.
Em sua atual passagem pelo Gimnasia de La Plata, Maradona tem sido homenageado em qualquer cancha que visite.
Na Bombonera de seus amores, obviamente seria exaltado de todas as formas, com amor e sofreguidão, mas a principal reverência tão singela quanto inesperada: antes do jogo começar, Carlos Tevez dirigiu-se ao banco adversário e lhe tascou um arrebatado beijo na boca.
Riquelme, Maradona e Tevez, todos ídolos do clube, já tiveram (e têm) atritos entre si, mas estavam reunidos sob o mesmo céu do sul de Buenos Aires em uma noite que definitivamente não admitia um desfecho previsível.
Tanto Atlético Tucumán quanto Gimnasia se mostraram adversários valerosos.
Quando o Decano abriu o placar diante do River, no norte do país, e na Bombonera persistia o empate, deixando tudo empatado em pontos, desenhava-se mais um Superclássico decisivo, coisa que ninguém do lado de lá da fronteira aguenta mais.
O time de Gallardo logo buscou o empate, mas às margens do Riachuelo o segredo do ferrolho platense enfim foi desvendado quando Carlos Tevez mandou um balaço da entrada da área.
E o Carlos Tevez de 2020 correu e comemorou como se fosse o Carlos Tevez de 2004.
Como a vida é uma eterna roleta que volta e meia se detém no mesmo ponto, especialmente se este ponto nos custa dinheiro ou vergonha, Riverdo Zielinski, técnico da esquadra tucumana, era o comandante do Belgrano que rebaixou o River Plate quase uma década atrás.
A cidade de San Miguel de Tucumán é conhecida como Jardín de La República, pois lá se reuniu o congresso que em 1816 declarou a independência da Argentina em relação à Espanha.
Pois no sábado (7), por vias paralelas, a cidade se transformou provisoriamente no canteiro que redimiu La República de La Boca, já que permitiu ao tradicional clube azul y oro retomar, ao menos por uma noite, sua identidade.
Uma identidade que não é baseada somente na vitória, mas que também a tem em alta conta, especialmente se do outro lado está o River Plate.
E quando as câmeras mostravam Riquelme impassível em meio à loucura, sorvendo com disciplina seu mate enquanto o Rio de La Plata atingia ponto de fervura, a mensagem que o eterno camisa dez passava é de que o normal, para o Boca, é vencer.
De preferência, na presença dos seus ídolos e de sua gente, e no seu bairro.
Nos pés do ídolo: Tevez é decisivo, e Boca Juniors rouba título do River Plate na última rodada.
Atacante faz gol de vitória por 1 a 0 em cima do Gimnasia, de Maradona, time de Gallardo só empata com Atlético Tucumán, e xeneizes conquistam Campeonato Argentino.
Os mais supersticiosos dirão que o beijo deu sorte.
A conexão de ídolo para ídolo com o selinho de Tevez em Diego Maradona antes de a bola rolar era um presságio.
Pois foi dos pés do atacante e capitão do Boca Juniors que saiu o gol da vitória por 1 a 0 em cima do Gimnasia La Plata. E saiu também o título do Campeonato Argentino.
Em uma última rodada emocionante, a equipe de Carlitos roubou o título do rival River Plate no instante final.
O time de Marcelo Gallardo, líder em quase todo o campeonato, empatou por 1 a 1 com o Atlético Tucumán fora de casa.
Ficou com 47 pontos e viu os xeneizes chegarem aos 48 e conquistarem o trigésima quarto título argentino.
O título é uma redenção para uma torcida que passou por dois grandes traumas recentes diante de seu maior rival: as derrotas na final da Taça Libertadores da América de 2018 e na semifinal do torneio continental do ano passado.
Mais que isso.
O Campeonato Argentino era uma obsessão para Marcelo Gallardo, que ainda não o conquistou desde que assumiu o Millonario, em junho de 2014.
O treinador tem 11 títulos à frente do clube.
E segue sem vencer a liga nacional.
O River Plate chegou às duas últimas rodadas com três pontos de vantagem para o rival.
Mas empatou seus dois últimos jogos.
O Boca venceu suas duas últimas partidas e ultrapassou o time de Núñez.
Emoção em 90 minutos: Foram 90 minutos de apreensão no Monumental José Fierro, em San Miguel de Tucumán, e na Bombonera, em Buenos Aires.
Os dois únicos candidatos ao título entraram em campo na mesma hora.
O empate em ambas as partidas dava o título ao River Plate.
Aos 18 minutos do primeiro tempo, Toledo abriu o placar para o Tucumán, de cabeça, ao aproveitar um bom cruzamento da direita.
Com o triunfo parcial do Decano diante do River e o empate na Bombonera, a decisão do título iria para um jogo extra, em campo neutro.
No entanto, ainda na primeira etapa, o Millonario empatou.
Matías Suárez aproveitou cruzamento de Casco da esquerda e também testou para as redes.
O 1 a 1 voltava a dar a taça para o River Plate.
Aos 27 minutos do segundo tempo em Buenos Aires, Tevez recebeu de Villa na entrada da área e, com um forte chute, fez o seu sexto gol nos últimos cinco jogos.
O gol do título.
O River pressionou, quase fez o segundo com Suárez, mas ouviu o apito final com a frustração de um vice-campeonato improvável.
River ainda é o maior campeão: O Boca Juniors conquistou seu quarto título dos últimos seis anos, o trigésima quarta na história.
O River Plate ainda é o maior campeão argentino, com 36 conquistas.
No entanto, o Millonario não é campeão da liga nacional desde o torneio final de 2014, antes da chegada de Gallardo.
Campeão da Taça Libertadores da América em 2007, o técnico Miguel Angel Russo conquista seu segundo título à frente do Boca Juniors.
Ele, no entanto, comandou apenas em sete das 23 partidas do Campeonato Argentino, com seis vitórias e um empate.
Russo substituiu Gustavo Alfaro, que deixou o clube no final de 2019.
Com Russo, Tevez virou titular absoluto.
Começou desde o início em todos seus seis jogos e marcou seis gols.
Antes, era reserva.
Sob o comando de Alfaro, o ídolo do Boca Juniors jogou 10 vezes, quatro como titular.
Copa da Superliga define vagas na Taça Libertadores da América e rebaixamento: As regras para a definição dos classificados para a próxima Taça Libertadores da América mudaram neste ano. Campeão da Superliga, o Boca é o único com vaga garantida em 2021.
Os três classificados restantes sairão da tabela final, obtida com os resultados da fase grupos da Copa da Superliga, que terá início no próximo fim de semana.
O campeão da Copa da Superliga e o campeão da Copa Argentina são os demais representantes na próxima Taça Libertadores da América.
O rebaixamento é definido pela tabela com a média da pontuação dos últimos três anos e também só será definido com os resultados da fase de grupos da Copa da Superliga.
No momento, Aldosivi, Patronato e o Gimnasia La Plata, de Diego Maradona, ocupam as três últimas posições.
De última hora, a AFA alterou as regras, e apenas duas equipes serão rebaixadas diretamente.
O time com terceira pior média disputará um playoff com outra equipe que vem da Primera B Nacional, a Segunda Divisão no país.
A Copa da Superliga terá um novo formato em 2020.
Na sua primeira edição, no ano passado, o torneio foi apenas em mata-mata.
Desta vez, os 24 times se dividem em dois grupos de 12 cada.
As equipes se enfrentam dentro da própria chave em turno único.
Os dois melhores de cada avançam para a semifinal e final, em jogos únicos.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





