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SYLVINHO. SELEÇÃO DA ALBÂNIA.
Análise

Sylvinho na Albânia

Como é a vida em cinco idiomas do técnico ex-Corinthians na seleção europeia.

Morando em Tirana, técnico se sente à vontade, dá até carrinho em treino, vai a pé para casa e mal precisa de tradutor.

Focado na Euro 2024, falta tempo para ver Timão e futebol brasileiro.

A voz firme, o discurso às vezes acelerado e o foco total no trabalho são os mesmos dos tempos em que treinava o Corinthians até o ano passado.

Agora, porém, o que Sylvinho fazia apenas em português se estende ao italiano, ao inglês, ao espanhol e até a algumas palavras no idioma de seu novo país.

Técnico da Albânia desde janeiro de 2023, ele viu no cargo um passo que não esperava dar agora, mas também uma oportunidade de se recolocar bem no mercado.

A Albânia ocupa apenas a sexagésima oitava posição no ranking da FIFA (Federação Internacional de Futebol), mas aposta em Sylvinho e uma comissão técnica “multicultural”, como ele próprio diz, para conseguir uma vaga na Euro 2024, seria apenas a segunda, depois da estreia em 2016.

O comandante tem ao lado o brasileiro Doriva, que já era seu auxiliar no Corinthians, e o argentino Pablo Zabaleta, lateral de Copa do Mundo que teve destaque, principalmente, no Manchester City e inicia agora uma carreira como assistente.

“Nós somos jovens e estamos buscando nossos espaços. Há dez anos, 12, 13, participo de comissões técnicas. Não me via (treinando uma seleção), também, embora com experiência extraordinária na seleção brasileira. (…) E isso ajudou nessa minha escolha, a seleção brasileira me ajudou a entender que trabalho era esse. Não sentei aqui e falei “E agora?”, disse Sylvinho, em entrevista ao Globo Esporte, durante mais um dia de trabalho em sua sala no Centro de Treinamento.

“No fim, a gente não consegue projetar tudo, e vi como uma oportunidade muito boa. Depois, unindo aquilo que está acontecendo, o que já está mudando um pouco nesse percurso… Alguns treinadores mais jovens estão também atuando em seleções. Estou vendo uma tendência de treinadores jovens assumindo federações, seleções e desenvolvendo seus trabalhos. Sempre vi com bons olhos essa nossa escolha aqui na Albânia”, completou.

Em meio a tanta responsabilidade, Sylvinho deixou esposa e filho no Porto, em Portugal, onde vivia após ter deixado o Corinthians, e foi morar num hotel em Tirana, capital da Albânia, posicionado entre o Centro de Treinamento da federação local, onde passa a maior parte do tempo, e a Arena Kombëtare, estádio inaugurado em 2019 que recebe os jogos da seleção, tem capacidade para 22 mil torcedores e já foi palco de final da Conference League em 2022, entre Feyenoord e Roma.

Cinco idiomas… E também carrinhos: A missão Euro 2024 terá capítulos importantes nesta semana: a Albânia de Sylvinho recebe a Moldávia, neste sábado (17), e visita Ilhas Faroe, na próxima terça-feira (20), em busca de seis pontos para arrancar no Grupo E das Eliminatórias para o torneio, que classifica duas seleções e tem como favoritas Polônia, que venceu os albaneses por 1 a 0 na estreia do técnico, e República Tcheca.

Para montar a lista, Sylvinho pode ter quebrado a cabeça, feito escolhas, mas um problema ele não enfrentou: comunicação.

Com o italiano “puxando a fila”, ele conseguiu conversar individualmente com todos os convocados, seja pessoalmente ou por vídeo.

Tradutor, mesmo, só na hora dos treinos.

“Eu já tinha um passado de quatro, cinco anos morando na Itália, falando italiano. O primeiro jantar com o presidente, tudo, foi tudo desenvolvido em italiano. Na federação, vou embora entre o italiano e o inglês. Isso tem me feito desenvolver bem. (…) Eu já falei com 30 atletas, entre todos os atletas que fui visitar, vi jogos ou falei por videochamadas não precisei de tradutor. Falar com um albanês que joga em Portugal, eu brasileiro, em português de Portugal, extraordinário! Temos dois atletas de lá vindo agora. São coisas ricas que vão acontecendo culturalmente e guardo isso”, contou Sylvinho.

“O que a gente faz é: nas reuniões principais, vou apresentar uma ideia de futebol, falo em italiano e uma pessoa da parte técnica traduz para o albanês. Não quisemos abrir mão disso de forma alguma, vai falar o idioma local, inclusive nos treinos, qualquer dúvida que fica tem esse tipo de tradução. Embora eu, Doriva e Zabaleta nos viremos em italiano, espanhol, inglês, português. Então conseguimos ter o comando do treino sem problemas, perde-se menos tempo, a comunicação é boa”.

Mas, e falar albanês?

“Quando falei que me viro não é no albanês, é no italiano (risos). O idioma não dá, é realmente difícil, arrisco algumas palavras, o bom dia, o boa tarde, o boa noite… Vai pegando. São palavras isoladas, é muito difícil. Então me viro com os demais idiomas”, avisou o técnico.

A linguagem mais utilizada, no entanto, é a da bola.

Um vídeo de Sylvinho dando carrinhos em seus comandados rivalizou recentemente, mostra da intensidade, mas também da maturidade de um técnico que se sente seguro com os próprios passos, sem cruzar limites.

“Desde a época que me conheço como treinador, recebi muitos elogios de treinadores tops, seguros. Eu sempre tomava meus cuidados para saber se entrava ou não numa rodinha, num treino, e depois de falar com esses treinadores tops, disseram: “Você tem toda capacidade, condição, educado, não vai nunca passar o limite, é muito interessante essa tua troca”. E eu sou assim, não vou limitar jamais potencial e pontos fortes que acabo tendo para estar com os atletas”, contou Sylvinho.

“Quando desenvolvemos o trabalho no Corinthians foi muito parecido, a proximidade de estar no clube o tempo todo, eles veem tudo, uma hora antes do treino o trabalho está pronto. O treino é às 16h, chegamos às 8h, conversamos com aquele que está lesionado… É todo um cenário. E essa energia temos de passar para eles, criar uma relação com todos”.

Do Centro de Treinamento para casa?

A pé mesmo!

Doriva mora com Sylvinho em Tirana, enquanto Zabaleta ainda vive em Barcelona, por causa dos filhos pequenos, e viaja antes dos jogos.

Há muito trabalho, sim, mas com uma rotina mais calma do que nos grandes centros e que permite que o técnico viva a cidade, conheça a cultura, interaja com torcedores e até volte a pé para casa.

“É um povo fanático por futebol. Quando tenho a possibilidade, vou pela rua. Muitas vezes vou embora a pé, estou a 1,5km, 2km do hotel, está próximo do estádio também. Às vezes vou a pé, paro numa cafeteria e alguém diz: “Olha, somos tão fanáticos quanto vocês, brasileiros. Amamos futebol”, disse Sylvinho.

“O caminho é muito curto e passamos por dentro de um parque. Eu me acostumei, e toda vez que saio uso boina e óculos escuros, então não vão reconhecer. Eu gosto de andar no anonimato, mas quando sou reconhecido, é aquilo: “Mister, para 2024 nós vamos”.

O clamor popular é pela Euro.

A rotina no Centro de Treinamento é em “horário comercial”, começa por volta das 8h e se estende até às 17 horas (horário de Brasília).

À noite, há tempo para apreciar a culinária albanesa, bastante inspirada na Itália e na vizinha Grécia.

“Tirana é uma cidade que me surpreendeu bastante, está crescendo muito. Estamos no centro, a federação está muito bem localizada, assim como Centro de Treinamento e o estádio, é tudo novo, e tudo muito próximo. Então estamos muito bem, a culinária é extraordinária, tem ascendência muito grande da culinária italiana, atravessou o Mar Adriático chega aqui na Albânia…”

“E a cidade é boa, estou gostando muito de morar aqui, falei da culinária italiana, mas tem também da grega, turca, culinária rica, pratos ricos, saborosos, bons. Recomendo passar em Tirana um dia. O jantar pago eu, e o Doriva também (risos)”, brincou o técnico.

Mesmo numa região de tensões históricas, principalmente com a vizinha Sérvia, Sylvinho se vê num ambiente mais seguro em Tirana.

Só não deu tempo de sair da capital e conhecer outras áreas turísticas do país, como a chamada “Riviera Albanesa”.

“Convivência tranquila. Nossa comissão é muito internacional. Argentino, brasileiros, albaneses, italianos… Os relatos que escutamos e conversamos nos cafés, nas pausas, são sobre momentos de tensão que foram vividos num passado recente. Um pouco da história do país, isso tudo fica e vamos aprendendo e entendendo”.

“Mas até onde me passam, foram vítimas muitas vezes, e dentro do país não vemos esse tipo de coisa, violência… De não falar com o cara que é de Kosovo, ou da Sérvia… Vejo um país se envolvendo, não tive a oportunidade ainda, mas tem praias muito bonitas a duas, três horas de Tirana, sentido Grécia. O país é bonito e está se desenvolvendo bastante”, contou o técnico brasileiro.

Tudo ao mesmo tempo agora: Apresentados em janeiro, Sylvinho e Doriva viveram no início um regime de imersão total só para entender o que teriam em mãos no elenco.

A seleção da Albânia, afinal, tem jogadores espalhados pelas principais ligas da Europa, mas poucos conhecidos: os mais famosos são os goleiros Etrit Berisha, do Torino, e Thomas Strakosha, do Brentford, o lateral-direito Elseid Hysaj, da Lazio, e os atacantes Armando Sadiku, do Cartagena, e Armando Broja, do Chelsea, este último, porém, sofreu lesão grave no joelho em dezembro e ainda não está à disposição de Sylvinho.

Assim, Sylvinho e Doriva tiveram de fazer uma espécie de “varredura” do futebol albanês.

Em pouco mais de um mês, a dupla:

Assistiu a jogos anteriores da seleção da Albânia.

Conversou com técnicos que passaram antes deles.

Monitorou jogadores do país pela Europa.

Assistiu a jogos do campeonato local nos estádios.

Viajou para conversar com atletas que jogam em grandes centros.

Mapeou uma lista de pelo menos 50 potenciais convocados para o ciclo.

Montou a lista para a estreia contra a Polônia.

“Você me remeteu ao primeiro dia: muito trabalho, muita energia gasta. Mas exige demais, cara do céu! Quando me colocaram na lousa o nome dos 50 caras em potencial, primeiro que para escrever já não é simples… Eu olhei e falei: “Doriva, quantas malas de 32kg você trouxe? Duas?”. E fomos desenvolver, mergulhar em tudo o que tínhamos, sem esquecer o legado deixado pelo treinador anterior (o italiano Edoardo Reja)”, lembrou Sylvinho.

“Agora eu preciso rever, oito, 10, 12, 15 jogos da seleção albanesa, o que era e o que queremos mudar. Não que estivesse ruim, mas que temos outra forma de trabalhar. A partir daí, entender todo aquele quadro e relativizar no nosso sistema e em nossa forma de trabalhar quais jogadores vão. (…) Chegamos em 9 de janeiro, estou falando em 9 de fevereiro e a convocação seria dali um mês. O processo continuou, mas mais leve”.

“Depois vem a última etapa, quando o atleta vem para você. Quando ele está treinando, você tem as reais percepções de que ele pode ser mais ou menos do que você imaginava. Agora estamos em outro processo. Desses atletas que convocamos vieram quatro ou cinco com os quais ainda não estivemos em campo, mas já conhecemos esse núcleo da primeira convocação. Dá trabalho”, completou.

Copa do Mundo à vista?

Pensar em Euro 2024 é, indiretamente, testar o nível da seleção para o evento maior dali a dois anos: a Copa do Mundo de 2026, em Estados Unidos, México e Canadá, que terá um número recorde de 48 seleções.

A Federação Albanesa, claro, tem esse objetivo.

Mas Sylvinho prefere pensar na meta mais curta, até porque seu contrato é válido até junho de 2024, justamente na Euro.

Não há dúvida, porém, de que é um ciclo fundamental para a seleção mudar de patamar.

“Não foi colocada em pauta a Copa do Mundo. Todos os esforços, dedicação e a concentração de energia nesse momento são com a Euro. Eu brinco com o Doriva, digo: “É responsabilidade!”. Em alguns momentos vi isso com Tite, com Roberto Mancini… Engraçado como hoje a gente sente isso, a responsabilidade de decisões, é um país! Por isso exige respeito, trabalho, dedicação”.

“Onde vamos, ouvimos “temos que ganhar”. Eu acho justo. É tudo tiro muito curto, é um contrato de um ano e meio, mas tudo rápido, tem dois jogos agora, férias, depois mais dois. (…) Acredito que, se nós conseguirmos essa tão sonhada classificação, as chances vão até aumentar para a Copa do Mundo, em decorrência do maior número de seleções e esse desenvolvimento nosso. Queremos acreditar que, se formos para a Euro, o trabalho é bom, os jogadores são bons e aumentam as chances de irmos ao Mundial”, ressaltou o técnico.

Além dos resultados, há também a preocupação com o reforço de uma cultura.

Sylvinho entende que o albanês já é fanático por futebol, mas um “empurrão” da seleção não cairia mal.

“Percebo que os resultados que a federação quer alcançar e que estamos passando para os atletas podem fazer com que nosso ambiente seja ainda melhor e maior. O resultado mais expressivo da seleção foi participar da Euro 2016. Acredito que, com o desenvolvimento que estamos tendo e querendo, se chegarmos ao objetivo de disputar Eurocopas e Copas do Mundo, a tendência é termos estádios cheios para jogos da seleção, melhorar internamente o campeonato e criar um engajamento de todos. O resultado vai trazer engajamento de todos”.

“São fanáticos por futebol, amam, mas todos estão na expectativa por um grande resultado: “Vamos ou não vamos?”. Seria extraordinário!

Portas abertas (inclusive no Corinthians): Com tanto trabalho e desafiado por um fuso de cinco horas a mais em relação a São Paulo, onde nasceu, Sylvinho mal tem tempo de ver jogos que não estejam no contexto de suas funções na seleção da Albânia.

Do Corinthians, que deixou em 2022, tem visto pouco.

Mas sabe, por exemplo, da demissão de Fernando Lázaro, seu amigo e companheiro de comissão técnica de várias jornadas, em cerca de cinco meses no cargo.

“É difícil. Quando você tem um tempo curto, o que você vai falar? Não tem processo, não tem o que avaliar. Eu nem preciso de um mês ou dois de trabalho do Fernando, eu o conheço de muitos anos. Estivemos trabalhando no Corinthians em 2013 com o Tite, depois em 2014 com o Mano Menezes. Trabalhamos juntos na Seleção, depois no Lyon. Ele é um profissional altamente capacitado, com qualidades enormes em várias funções, como treinador também”.

“Mas não tenho processo de avaliação em um mês e meio. (…) É difícil, quando você tem um processo curto não é fácil fazer avaliação. Quando você fala que “sofreu uma pressão externa”, eu não vi muito, porque não estava no Brasil, mas foi um processo muito rápido. O nosso sim, houve um processo externo de cobrança bastante forte, a qual hoje se entende: o limite era o quinto lugar no Brasileiro. Trazemos para nós: período de quase nove meses de trabalho. Era um cenário difícil interno”, recordou Sylvinho.

Apesar de ter comandado o Timão em apenas 43 jogos, com classificação à TaçaLibertadores da América de 2022, mas sem títulos, Sylvinho deixou portas abertas.

Algo normal para alguém acostumado a rodar o mundo, a ponto de deixar seu futuro sem grandes planejamentos.

Qualquer projeto, desde que bem montado, pode interessar ao técnico de 49 anos.

“É difícil para nós, como comissão técnica jovem, fazer grandes planejamentos. O que eu deixo são possibilidades abertas. Desde que comecei a trabalhar em comissão técnica, voltei a morar fora por cinco anos, dos quais dois pela Inter de Milão e três pela seleção brasileira. Estive na França, Corinthians, Albânia… foi se desenvolvendo essa parte do conhecimento de pessoas. Tudo isso me permite essa situação de deixar as portas abertas”.

“Ou seja: estou absolutamente feliz aqui, esperançoso de alcançar nosso objetivo, e depois veremos. As possibilidades de trabalhar nos Estados Unidos ou no Japão, por exemplo, não são problemas para mim. Se há planejamento, pessoas de confiança envolvidas, se percebo que há chance de bom trabalho se desenvolver… por que não? Já estou na Europa, por que não? Voltar ao Brasil? Perfeito! Tem México… Abre-se o leque para nós. Por que não trabalhar no México, Argentina, Uruguai? Eu deixo essa porta aberta, não é com qualquer sentido, é porque as oportunidades me permitiram”, destacou.

Mas, por enquanto, será difícil tirar Sylvinho da Albânia. Onde ele até se esquece que é brasileiro.

“Tem hora que nem me sinto estrangeiro na Albânia, mas óbvio que sou! (risos)”, brincou o técnico, um cidadão do mundo.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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