Muitos jogadores de futebol, ao encerrarem suas carreiras, se preparam e viram treinadores. O grande desafio é fazer sucesso e conquistar títulos nos dois lados da “moeda”. Com Silas não é diferente.
Como jogador, na década de 80 ele fez parte de um dos melhores times da história do São Paulo Futebol Clube apelidado de Menudos do Morumbi, conhecido pelo futebol envolvente, ofensivo e vencedor. Os Menudos venceram dois campeonatos paulistas, em 1985 e 1987, e um Campeonato Brasileiro, em 1986. O elenco tinha, entre outros jogadores, Oscar, Dario Pereyra, Falcão, Pita, Muller e Careca.
Já como treinador, Silas ganhou destaque com o Avaí, levando o time catarinense à sexta colocação do Brasileirão de 2009, algo histórico para o clube. Um ano antes, em 2008, ele foi eleito o melhor treinador da Série B, desbancando Mano Menezes, campeão da segundona com o Corinthians.
Seu último trabalho foi no Ceará, onde conquistou a Copa do Nordeste de 2015 em cima do Bahia. Atualmente sem clube, Silas aproveita para descansar e aguarda um convite para voltar a trabalhar como técnico. Em entrevista exclusiva ao Esquema de Jogo, ele fala sobre seus objetivos, o atual momento do futebol brasileiro e relembra os tempos de jogador. Confira:
Esquema de Jogo: Você foi campeão da Copa do Nordeste com o Ceará, mas saiu por conta da má campanha na Série B. Você acha que foi justa a sua saída?
Silas: Aconteceram algumas coisas que acabaram atrapalhando a sequência na Série B. Saíram oito jogadores que estavam no time titular e isso prejudicou bastante a sequência da temporada. Houve também o desgaste por conta da primeira parte do ano, onde jogamos Copa do Nordeste, Campeonato Cearense e Copa do Brasil, um desgaste físico, mental, e aí os resultados obrigaram a gente a abandonar o trabalho, mas o clube foi muito bom nesse aspecto, segurou o máximo que conseguiu, não foi nessa normalidade que a gente está vendo, onde dois ou três jogos com derrota já mandam trocar o treinador. A gente estava tentando, todas as decisões tomamos juntos, seja quando estávamos ganhando ou quando começamos a perder, tanto que quando eu saí a gente estava seis ou sete jogos sem vencer, e o Geninho quando chegou ficou mais cinco.
EJ: Você citou essa troca constante de treinador. Acha que a falta de continuidade é o grande problema para o técnico brasileiro?
S: Eu acho que o problema não é a troca de treinador, o problema é que a gente não consegue segurar um grande jogador por muito tempo e ele tem grande parte do resultado positivo, então quando você perde um grande jogador você perde também grande parte do resultado, é difícil você repor um grande jogador não só em nível técnico, mas também na moral para os outros jogadores. O torcedor também fica menos tolerante quando você acaba não conseguindo segurar um craque.
EJ: Muita gente questiona a qualidade do futebol brasileiro. Na sua opinião, a situação é preocupante?
S: Eu acho que o 7 a 1 para a Alemanha desencadeou uma tristeza generalizada, então precisa-se fazer muito. Países que eram considerados inferiores hoje estão crescendo por conta da organização. Eu acho que o nosso problema maior não é a qualidade de jogadores ou treinadores, mas passa pela organização mais do que qualquer outra coisa.
EJ: Essa falta de organização que você está citando preocupa a nível de seleção brasileira? Muitos discutem a possibilidade do Brasil nem se classificar para a próxima Copa.
S: Acho que essa é a primeira vez que a gente fica preocupado em não conseguir uma classificação, realmente estamos pagando caro por conta dessa desorganização e isso está refletindo na seleção brasileira, o que antes não acontecia. É preocupante sim.
EJ: Hoje dificilmente os times conseguem manter um time-base por muito tempo. Você acha que essa é uma grande dificuldade para os técnicos atualmente também?
S: Eu acho que passa pela dificuldade econômica do país e também pessoal. O jogador vê a possibilidade de ganhar mais dinheiro e acaba optando pela saída, às vezes até para a China, para a Rússia, e aí o cara vai só pelo dinheiro mesmo, porque futebolisticamente não vai acrescentar muito na carreira dele.
EJ: Em uma entrevista que você concedeu à ESPN, você falou da sua ida para o Flamengo, onde você disse que foi por orgulho por conta de ser um dos maiores times do país. Você acha que aquele momento não foi o ideal para você ter ido para lá?
S: A experiência vem de várias coisas que a gente faz, na maioria das vezes as coisas erradas. Eu pude aprender bastante com aquilo e já pude colocar em prática em outros clubes que eu trabalhei, ou seja, analisar melhor uma proposta, não só financeira, mas uma proposta de trabalho de modo geral.
EJ: Você acredita que por conta dessas experiências você estaria mais preparado hoje para assumir um time grande?
S: Sem dúvida, quem está na estrada há muito tempo aprende um pouco. Você vê jogadores que muita gente já via como em fim de carreira e estão despontando novamente. Não tem uma base para você medir a proposta de trabalho quando vai dar certo ou não. Você vê jogadores veteranos, como o Zé Roberto, o próprio Diego Souza, o Magno Alves, jogadores que tem bastante idade e estão jogando em um nível muito bom. Isso só mostra que depende muito de clube para clube, qual o ambiente que ele vai encontrar, a qualidade dos companheiros que vão estar do lado dele, a forma como o próprio treinador insere esse jogador no trabalho, eu acho que a gente vai aprendendo no dia a dia e vai melhorando. Não existe uma grande diferença de um clube para outro, que você diga: “Esse aqui não vou trabalhar, não tem condições”. Uma coisa eu acho que é você aprender com o erro, outra é você não estar apto para encarar um grande desafio.
EJ: No São Paulo você teve o maior destaque da sua carreira como jogador. Sonha um dia dirigir o São Paulo?
S: Eu acho que se você conversar com todos os treinadores da Série A e da Série B e falar de São Paulo, Corinthians, Grêmio, Palmeiras, Inter, Flamengo, Atlético, Cruzeiro, Botafogo, Fluminense, todo treinador gostaria de trabalhar nesses clubes e eu não sou diferente, eu vou me preparando e à medida que as oportunidades vão aparecendo você analisa quais que encaixam melhor na sua forma de trabalhar. Se acontecer, vou ficar feliz.
EJ: Atualmente você tem algo em vista, quer permanecer no futebol brasileiro ou está aberto à propostas do exterior também?
S: Estou aberto sim, o momento agora é de trabalho. Não tenho tantos anos de carreira como treinador, então o momento é de trabalhar. Logicamente que você procura um clube que tenha um CT para se trabalhar, tenha uma boa sala de musculação, um departamento de fisiologia que funcione, alimentação, que tenha uma certa facilidade de transporte, pois o Brasil é muito grande, dependendo do lugar atrapalha no dia a dia do trabalho. O meu momento não é de dizer: “Só vou para aqui ou ali”.
EJ: Você está em negociação com algum clube atualmente?
S: Sempre aparecem especulações aqui e ali, mas concreta mesmo não. Estou aproveitando o tempo para descansar, foi muito corrido o primeiro semestre, então estou aproveitando para descansar, porque a hora que aparece o clube aí é mergulho no trabalho e a exigência é muito grande. Então, tem que usar esse tempo também para dar uma recarregada. A Copa do Nordeste foi boa porque devolveu o nome da gente no mercado e isso está ajudando também.
EJ: A gente está vendo o Osório no São Paulo e o Diego Aguirre no Inter. Você acha válido termos treinadores estrangeiros aqui no Brasil? Acha que terão paciência para deixar eles implementarem seu estilo de trabalho?
S: Eu não sou contra. Não acho que eles são melhores e nem piores que os nossos, eu acho que tem treinadores melhores do que eles aqui e tem outros que são piores. Tolerância eu acho que o São Paulo sempre teve, inclusive com os brasileiros. O Inter está demonstrando uma tolerância grande, porque depois de uma eliminação na Libertadores do jeito que foi eu acho que um treinador brasileiro teria saído, mas o Aguirre não, ele está mantido e logicamente que você fica contestado por não conseguir passar para uma final de Libertadores e jogando mal como jogou, mas o Inter está conseguindo honrar o compromisso com o treinador e no final eu acho que isso vai ser bom se eles conseguirem ficar com ele lá.

EJ: Você conseguiu trazer o Avaí para a primeira divisão depois de muitos anos e também levar o time ao sexto lugar do Brasileirão de 2009, algo histórico para o clube. Foi seu melhor trabalho como treinador?
S: As lembranças sãos as melhores possíveis. Foi meu primeiro trabalho na Série A, houve uma parceria muito grande com a diretoria e isso colaborou muito para que o trabalho tivesse continuidade e sucesso. Acho que foi um grande começo, tanto que depois de sete anos o trabalho ainda é muito lembrado.
EJ: Você é muito lembrado por ter feito parte dos Menudos do Morumbi, para muitos um dos melhores times da história do São Paulo. Você acha que é possível repetir a maneira daquele time jogar?
S: Eu acho que é possível sim, tanto que os Meninos da Vila, quando teve Robinho, Neymar, Diego, aquela turma toda, eles conseguiram repetir aquele futebol alegre que a gente jogava, com muitos gols. Eu acho que é possível, você precisa principalmente ganhar jogos, porque aqui no Brasil o que mantém o trabalho, tanto interno quanto externamente, são as vitórias, não tem como.
EJ: Qual a importância do Cilinho para a sua carreira? Ele teve influência no seu trabalho de treinador hoje?
S: O Cilinho andava na frente de todo mundo. Hoje está se jogando muito no 4-3-3, ele já fazia muito isso naquela época. O futebol roda muito, mas ele volta sempre à raiz. Hoje está se jogando com o ponta de novo, no 4-2-3-1, tem o ponta esquerda, o ponta direita. Antigamente já se jogava assim. Na Copa de 86 tinha um inglês que se chamava Glenn Hoddle, ele já jogava do lado direito usando a perna esquerda, trazendo para o meio e batendo, então o futebol volta sempre nessas mesmas situações. O Cilinho já via tudo isso antes e por conta do conhecimento que ele tinha ele já conseguia mudar os jogos no intervalo, ganhamos muitos jogos depois das mudanças dele, às vezes não de jogador, mas taticamente, no posicionamento. Isso você traz para o dia a dia, aquilo que dá para implementar você implementa, aquilo que ficou obsoleto você deleta, mas a contribuição dele está sendo muito grande no meu trabalho.

EJ: Você conquistou o Brasileiro de 86 com o São Paulo, mas na Libertadores do ano seguinte o time acabou não indo tão bem, sendo eliminado na primeira fase. Qual o motivo da queda de rendimento?
S: O São Paulo não dava a mesma importância para a Libertadores que dava para o Campeonato Brasileiro. Quando o Flamengo foi campeão em 81, ali se começou a dar um pouco de importância, mas até então ninguém ligava muito. Quando o Grêmio ganhou também passaram a valorizar mais e quando o São Paulo foi bicampeão aí sim pegou de vez, todo mundo quer Libertadores agora.

EJ: Você teve uma passagem de destaque na Argentina pelo San Lorenzo. Houve muita resistência lá quando você chegou pelo fato de ser brasileiro?
S: Não, não houve. O meu técnico lá, o Héctor Veira, que havia jogado aqui no Corinthians, já tinha me visto jogar aqui e quando eu cheguei lá ele me deu toda a proteção que eu precisava para atuar na Argentina. Foram quatro anos de muita alegria.
EJ: Pelo sucesso que você fez lá, acha que teria mercado para treinar um clube argentino?
S: Acredito que tenho mercado sim, estou me preparando para isso. Não sei como será a aceitação, porque eu não me lembro nos últimos 30 anos de algum treinador brasileiro que esteve lá, talvez tenha que pagar para ver.






