O dia em que Capita me deu uma camisa 4 sagrada.
Senta que lá vem história.
Pode uma das maiores emoções da vida de um jornalista acontecer dentro de um estacionamento cinzento em São Conrado?
Aconteceu e foi inesquecível.
Há alguns anos, marquei uma entrevista com Carlos Alberto Torres, esse camisa 4 que tem nos encantado nas reprises da Copa 70 do Sportv.
Era para falar de futebol, de vida, de México.
Sempre acolhedor, apesar da voz de trovão, Carlos Alberto contou novos e velhos causos daquele time de divindades.
Havia o Deus do Drible, que trajava a camisa 7.
O Deus do Passe, que era o 8.
O Deus Canhoto, camisa 11.
O Deus Invisível, que sumia e aparecia sem ninguém ver na área adversária.
E o Deus dos Deuses.
Só que esta mitologia era diferente da romana e da grega.
Havia um capitão dos deuses.
Era o Capita.
Um personagem literário. Um Capitu dos gramados.
Amigo íntimo de Beckenbauer e Bobby Moore.
Eleito o melhor lateral-direito de todos os tempos.
Nosso papo foi no restaurante.
Depois do cafezinho, fomos embora juntos. Ele estava de carro e eu também.
No tal estacionamento cinzento e subterrâneo do shopping Fashion Mall, nos despedimos.
Súbito, a voz de trovão me chama ao longe.
Ô Garambone, vem aqui rapaz. Vou te dar um negócio…
Voltei e caminhei na direção dele.
Carlos Alberto abriu o porta-malas e tudo virou mágica.
Um clarão imaginário, somado à minha adrenalina, assustou até o segurança ao longe.
Dentro do porta-malas, várias amarelinhas dobradinhas. Réplicas da camisa 4 do tricampeonato. Um amarelo forte, lindo, ornado pela gola verde e o místico escudo CBD bordado.
Ele percebeu meu espanto e explicou.
Você sabia que a Athleta, que fazia nossas camisas junto com a Umbro, estava com a produção parada, mas toparam fazer por encomenda para mim? Foram 100 e de vez em quando dou para os amigos.
Continuei mudo.
Ele esticou o braço e me entregou.
Pega uma para você.
Consegui responder da forma mais chavão possível.
Que honra.
Nos despedimos novamente, saí andando.
Ele ligou o carro.
Súbito, lembrei-me de algo!
Capita!
E corri até ele.
Fala…
Faltou o teu autógrafo!
A resposta veio singela.
Que isso?
Vai estragar a camisa.
Ela é mais linda do que tudo.
O autógrafo você guarda aqui, ó….
Disse isso, esticou a mão e me cutucou a testa com o dedo.
Eu sorri e respondi.
Tá certo. Só que é aqui e aqui.
E apontei meu coração.
Reportagem: Garamblog
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





