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PORTUGUESA-SP. 100 ANOS.
Análise

Resistência Portuguesa

Em crise que parece sem saída, Lusa chega aos 100 anos e mantém acesa paixão de torcedores.

Imagem abre Portuguesa centenário 100 anos – globo esporte.

Quem chega ao Canindé pela rua Comendador Nestor Ferreira vê, à direita, o restaurante Cais do Porto, famoso pelo bacalhau.

Ele está aberto, mas vazio, ainda consequência da epidemia de Covid-19, que fez baixarem as portas de comércios locais por quatro meses.

À esquerda, está um canteiro de obras aparentemente abandonado, com cercas abertas e areia onde antes ficava o complexo de piscinas da Portuguesa, um dos mais tradicionais clubes de São Paulo.

Em 2016, um garoto, Lucas, de 16 anos, morreu afogado ali após uma confraternização com colegas de uma das equipes de base do clube.

Com problemas estruturais, as piscinas foram destruídas, os custos de reforma e manutenção eram impeditivos a uma associação à beira da falência.

Mais à frente, à direita do estádio, uma enorme e feia estrutura de metal e lona branca ocupa o que era o campo de areia onde a Portuguesa fazia peneiras, Zé Roberto, ídolo do clube e titular na Copa do Mundo de 2006, foi visto ali pela primeira vez.

As tendas foram erguidas para uso da Feira da Madrugada, uma reunião de pequenos lojistas que já atraiu a polícia por causa dos produtos falsificados à venda enquanto funcionou em outro local.

Mas nunca ao Canindé.

O acordo, de 2018, jamais foi cumprido. há acusações de todos as partes e ações na Justiça para questionar o contrato.

As tendas continuam ao lado do estádio enquanto a disputa não se resolve.

Aos 100 anos, completados nesta sexta-feira, 14 de agosto, a Portuguesa parece entregue a um destino implacável.

Os três títulos paulistas (1935, 1936 e 1973), o vice do Brasileiro de 1996 e a conquista da Série B de 2011 estão num passado enterrado pelo presente de fracassos em campo e erros fora dele.

Mas, na segunda divisão do Campeonato Paulista, fora das quatro divisões do Campeonato Brasileiro desde 2017 e com dívidas que se amontoam, o clube ainda resiste.

A marquise do estádio do Canindé, na Zona Norte de São Paulo, com o nome que homenageia ex-presidente da Portuguesa, Marcos Ribolli

A marquise do estádio do Canindé, na Zona Norte de São Paulo, com o nome que homenageia ex-presidente da Portuguesa – Marcos Ribolli

“SOMOS A RESISTÊNCIA”: Artur Cabreira, aposentado, passou a se dedicar integralmente à Portuguesa nos últimos anos, após o falecimento da esposa.

Ouviu de um jornalista uma ironia sobre as condições das cabines de imprensa do Canindé.

Ao contrário de outros torcedores, revoltados com a observação, viu razão na piada.

Juntou-se a outras pessoas num grupo de WhatsApp, comprou latas de tinta e contratou um pintor.

As arquibancadas do velho estádio na Zona Norte de São Paulo ganharam cores outra vez, os refletores foram trocados, a fiação também.

As cabines de imprensa perderam as goteiras.

“Juntando tudo dinheiro da torcida, nada da Portuguesa. A Portuguesa também não tinha, né? Eu sabia que não tinha… então a gente foi juntando”, conta ele.

As áreas ocupadas por departamentos administrativos do clube e o Centro de Treinamento da Portuguesa, na Zona Leste, também tiveram melhorias.

“A gente tinha perto de 100 mil sócios. Hoje temos 2.000 sócios, sabe? O clube não se modernizou, não se preparou pra mudança. A Portuguesa que eu vi, e agora vejo a Portuguesa de hoje, é de chorar de tristeza o que fizeram”.

Hoje o pessoal fala ‘ah, a Lusinha’. Lusinha é uma coisa que irrita a gente.

A Portuguesa deu pra seleção brasileira 37 jogadores, todos formados na Portuguesa, Artur Cabreira,63.

“Quando você pede pra torcida, você consegue, porque o torcedor, sim, é o patrimônio da Portuguesa. É quem acompanha a Portuguesa em dia de chuva, num dia de sol, é o que de vez em quando apanha da polícia. Mas a gente passa por isso. Eu não queria morrer e ver a Portuguesa acabar”, diz Cabreira, emocionado.

O temor do torcedor de 63 anos é o mesmo do torcedor de 22 anos.

Gabriel Lourenço, vestido com um boné onde se lê “somos a resistência”, mantém memórias mais amargas da Portuguesa.

Ele não viu Ivair, Enéas, Dener.

Viu uma série de rebaixamentos que começou em 2002, no Brasileiro, depois em 2006 e 2012, no Paulista.

Também a sequência que derrubou a equipe da elite nacional, em 2013, até ficar sem vaga na Série D em 2017.

Teve épocas que eu vinha aqui naquele clima de “vou porque não sei mais quanto tempo vou poder ver a Portuguesa viva. Vou aproveitar meus últimos momentos com a Portuguesa’, Gabriel Lourenço, 22 anos.

“O CAOS É CULPA NOSSA”: Há uma imagem que demarca o início da decadência da Portuguesa, ainda que os problemas do clube, principalmente os financeiros, sejam anteriores a ela.

Quando Héverton pisa no gramado contra o Grêmio, no fim do jogo da última rodada do Brasileiro de 2013, ele não podia ter entrado em campo.

Estava suspenso por decisão do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), gerou punição ao clube, e a Portuguesa, que tinha se salvado do rebaixamento, caiu para a Serie B no tapetão.

Seguiram-se uma disputa jurídica que não alterou o resultado e uma investigação criminal que não encontrou provas de corrupção, como se suspeitava, e foi arquivada.

Outros rebaixamentos vieram, os problemas se acentuaram.

Em uma ação em andamento na Justiça, a Portuguesa alega em defesa entregue em setembro de 2019 que vive “enormes dificuldades” com um “passivo trabalhista em torno de 350 processos que totalizam, aproximadamente, R$ 140 milhões”.

No último balanço publicado no site da Federação Paulista de Futebol, em todo o ano de 2018 o clube arrecadou pouco mais de R$ 4,4 milhões em receitas.

Consultado em julho, o Tribunal Regional do Trabalho da Segunda Região, que abrange a Grande São Paulo, encontrou 261 ações trabalhistas que têm a Portuguesa como parte.

Por causa de algumas delas, o Canindé já foi a leilão mais de uma vez, sempre sem ofertas, as disputas e uma divisão no terreno do estádio, que ainda pertence em parte à prefeitura de São Paulo, afastam potenciais compradores.

“Esses últimos 15, 18 anos, não foram fáceis. Foi desleixo na ordem jurídica também, de ações que foram pessimamente defendidas, algumas que nem foram defendidas”, reclama o presidente da Portuguesa, Antonio Carlos Castanheira.

Ele assumiu a cadeira em janeiro, logo após vencer uma tumultuada eleição contra o então presidente, Alexandre de Barros, que buscava se reeleger.

“Como o clube anda assim, com desleixo? Primeiro, (vamos) fazer um planejamento, uma organização e executar. O que não dá mais é fazer as mesmas coisas, o que levou a Portuguesa a esse caos”.

Esse caos a que chegamos é culpa nossa.

Não foi culpa de mais ninguém, foi culpa nossa, Antonio Carlos Castanheira, 55 anos.

Castanheira conta que precisou reformar a administração da Portuguesa e cuidar de um time que tinha sido montado por uma junta de cartolas, uma solução para arrefecer as brigas políticas às vésperas da eleição, e que estava prestes a estrear na Série A-2 do Paulista.

“A gente não tinha um departamento sequer montado. Tivemos que fazer um ajuste de caixa e uma organização para pagar as contas de dignidade, que isso a gente não atrasou um dia sequer”, afirma, sobre os salários dos funcionários e despesas como água, energia, etc.

O time herdado não funcionou.

Na sexta rodada da segundona, em fevereiro, perdeu para o São Bernardo e entrou na zona de rebaixamento para a Série A-3, um fundo de poço que o clube jamais pisou.

Dois dias antes, a diretoria reformulou todo o departamento de futebol.

O técnico Fernando Marchiori foi contratado e, após a derrota na estreia, fez o time engrenar e alcançar a oitava posição, entre os oito que avançam à segunda fase, antes da paralisação do torneio por causa da pandemia do novo coronavírus.

O campeonato será retomado no próximo dia 19 de agosto, e ainda restam três rodadas na primeira fase.

A Portuguesa perdeu jogadores durante a interrupção, mas conseguiu manter a base da equipe que se recuperou na competição.

“Quem quer sair dessa situação que a gente está tem que passar por cima até do vírus. E nós vamos passar”, diz Castanheira.

“DEIXE A PORTUGUESA DE PÉ”: Veja trechos da entrevista do presidente da Portuguesa, Antonio Carlos Castanheira, globo esporte.

As ações trabalhistas apertam o pescoço da Portuguesa.

As sentenças não honradas levaram a dezenas de penhoras, de bloqueio de bilheteria, premiações, aos leilões do Canindé.

O clube deve, não paga, as receitas são retidas, novas dívidas surgem.

O clube deve, não paga… um círculo vicioso do qual não encontrou saída.

Castanheira busca um acordo na Justiça do Trabalho que abarque as principais ações, algumas de décadas, para tirar a Portuguesa das cordas.

“Os credores têm que entender que a Portuguesa tem que ficar de pé. A Portuguesa morta é que não vai pagar ninguém. Deixa a Portuguesa de pé, deixa ela fazer o acordo do jeito que ela pode pagar. Essa é a costura que a gente está fazendo: a cada vez que (o clube) cresce, quanto mais ele cresce, mais rápido ele liquida esse passivo”.

Os planos de buscar investidores para o Canindé, que surgiram em gestões recentes, continuam na mesa.

Eles incluem ceder a área do clube, em região valorizada da capital, para a construção de torres comerciais, hotéis, centros de convenção e outros empreendimentos imobiliários em troca de uma fatia do dinheiro e de um novo estádio, menor, mas mais moderno.

“Que o investidor ganhe o dinheiro dele, e a Portuguesa pague o passivo dela, e que ela tenha receitas futuras concomitantes ao projeto e que essa receita seja perene. A Portuguesa é forte, a Portuguesa tem patrimônio, a Portuguesa tem espaço, ela tem futebol, tem camisa. Ela consegue retribuir o retorno para o investidor”.

“A PORTUGUESA É A VIDA, SABE?”: Há torcidas que gostam de exaltar o sofrimento pelo qual passam ao alentar suas equipes, ainda que tenham empilhado títulos em suas histórias.

É preciso conversar com um torcedor da Portuguesa para entender que sofrimento é esse.

“Torcer para a Portuguesa não é fácil, tem que ser doente e fanático. Torcer para outros times é fácil – diz André Botelho, que compartilha a paixão com o filho, Murilo, de nove anos”.

“Na minha outra escola, eu tinha (um amigo que torcia para a Portuguesa), mas não era da minha idade. Era do sexto, sétimo ano. Mas na escola que eu estou agora, ninguém torce…”, conta o garoto.

O Canindé, um estádio liberado para até 19 mil torcedores, hoje é grande demais para a Portuguesa.

Na Série A-2 deste ano, o melhor público da equipe em casa foi na abertura do torneio, contra o XV de Piracicaba, com 3.111 pagantes.

“A torcida cabe numa Kombi. Qual é o problema de caber numa Kombi?”, questiona Artur Cabreira. Ele mesmo responde:

“Nenhum. Torcer pra time campeão é a coisa mais fácil do mundo. Agora, torcer pra Portuguesa não é fácil, é difícil”.

Com poucas taças, uma torcida pequena e em crise, a herança familiar, já muito forte no clube em épocas mais gloriosas pela relação com a colônia portuguesa de São Paulo, é fundamental para a nova geração de torcedores.

“Isso eu passei para o Marcelo. Ele vem no jogo, quer entrar com jogadores. Já está no sangue. Torcedor da Portuguesa é isso. Não é só um clube, é uma família”, diz Anderson Vieira, pai de Marcelinho.

É muito bom.

A Portuguesa é o amor.

É a vida, sabe?, Marcelinho, 5 anos.

Botelho teve o trabalho facilitado quando Murilo passou numa peneira e se tornou atleta do futsal do clube.

“Eu não consigo explicar essa paixão. É uma coisa difícil de explicar. E vira e mexe a gente tem que explicar, porque ninguém acredita você torcer pra Portuguesa”, brinca Botelho.

Todos compartilham de um mesmo desejo para o aniversário de 100 anos da Portuguesa: o acesso à elite do Campeonato Paulista.

Mas um eventual novo fracasso em campo não seria suficiente para eles desistirem.

“A gente não vive de título, a gente não vive de quantidade de torcida, a gente vive de Portuguesa, pela Portuguesa ser o que é. Depois de todas essas provas que a gente teve para demonstrar nosso amor pelo clube, eu cheguei à conclusão de que a Portuguesa pode disputar o campeonato que for, a várzea, eu vou estar acompanhando, nunca vou desistir da Portuguesa”, declara Gabriel Lourenço, que é membro da Leões da Fabulosa, torcida organizada da Lusa.

O presidente do clube, Antonio Carlos Castanheira, promete um futuro melhor:

“Tenho fé que nós vamos plantar novos 100 anos, e a Portuguesa vai vir muito forte desses 100 anos para a frente. A Portuguesa tem que se profissionalizar, tem que entrar numa era moderna, num futebol moderno. Nós vamos subir, esse vai ser o maior presente para a torcida: tornar a ter a Portuguesa na A-1 do Paulista e ser o quinto grande de São Paulo de novo. Porque ela é o quinto grande de São Paulo”.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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