Contas apontam abismo entre Atlético-MG e Flamengo de mais de R$ 150 milhões em receitas.
Diretoria do Galo vê “benefícios a longo prazo”, mas adesão à Libra quase causou renúncia de presidente, segundo dirigente de clube da LFF (Liga Forte de Futebol).
A preparação do Atlético-MG para enfrentar o Goiás, nesta segunda-feira (17), às 20 horas (horário de Brasília), pelo Campeonato Brasileiro, dividiu atenções na última semana.
Assuntos administrativos e financeiros do Galo repercutiram bastante, principalmente a adesão do clube à Libra, deixando a Forte Futebol.
O tema foi bastante debatido nos bastidores alvinegros, gerando dúvidas se a decisão foi a melhor para o futuro das finanças do Atlético e impactos no comando alvinegro.
O Globo Esporte ouviu especialistas a respeito do principal ponto de discussão: a diferença das projeções das receitas do Galo em relação ao Flamengo.
De acordo com os números divulgados pela Libra e pela LFF, dentro da estimativa de receita total de R$ 3,5 bilhões, o Flamengo receberia R$ 153 milhões a mais que o Atlético-MG, por ano na Libra.
Pelas contas da Forte Futebol, essa diferença seria de R$ 44 milhões.
A defasagem surge por causa da “garantia mínima”, condição estabelecida no estatuto da Libra, que assegura os valores de receitas proporcionais para todos os 20 participantes da Série A de 2025, com base do montante registrado na atual temporada.
Na edição 2022 do Brasileirão, o Atlético recebeu R$ 140 milhões a menos que o time rubro-negro.
De acordo com a regra atual, mantidas as receitas vigentes, em um cenário hipotético com o Galo conquistando o campeonato e o Flamengo sendo rebaixado, a equipe do Rio de Janeiro iria faturar R$ 150 milhões a mais que o Alvinegro.
Cenários de receita com o Atlético campeão e o Flamengo rebaixado no modelo da Libra:
Receita Série A: R$ 2,5 bilhões
1º Lugar: Atlético: R$ 149 milhões
17º Lugar: Flamengo: R$ 272 milhões*
Receita Série A: R$ 3 bilhões
1º Lugar: Atlético: R$ 186 milhões
17º Lugar: Flamengo: R$ 272 milhões*
Receita Série A: R$ 3,5 bilhões
1º Lugar: Atlético: R$ 221 milhões
17º Lugar: Flamengo: R$ 272 milhões*
Receita Série A: R$ 4 bilhões
1º Lugar: Atlético: R$ 255 milhões
17º Lugar: Flamengo: R$ 272 milhões*
Receita Série A: R$ 4,3 bilhões
1º Lugar: Atlético: R$ 275 milhões
17º Lugar: Flamengo: R$ 272 milhões*
*Valor de garantia mínima do Flamengo na Libra
Com uma receita estimada na casa de R$ 3 bilhões, os números da LFF e da Libra para Atlético-MG e o rival rubro-negro, projetados na classificação final do Campeonato Brasileiro de 2021 (Galo campeão e Flamengo vice), são os seguintes:
Receita Série A: R$ 3 bilhões
1º Lugar: Atlético: R$ 130 milhões (LFF)/R$ 118 milhões (Libra)
2º Lugar: Flamengo: R$ 145 milhões (LFF)/R$ 272 milhões* (Libra – * garantia mínima)
De acordo com o modelo acima, a comparação das receitas entre os dois clubes teria o Flamengo faturando R$ 15 milhões a mais, pelo modelo LFF.
Na Libra, o time carioca iria receber R$ 154 milhões de diferença para o Atlético.
Em cinco anos, o Rubro-Negro teria faturado cerca de R$ 695 milhões a mais que o Galo.
Atlético justifica a escolha: Assim que oficializou a mudança para a Libra, a direção do Galo divulgou uma mensagem, nas redes sociais do clube, explicando a decisão.
“Por decisão do órgão colegiado, o Galo decidiu aderir à Libra (Liga do Futebol Brasileiro), por entender que essa mudança representará, no longo prazo, maiores benefícios financeiros e institucionais para o clube. O Atlético sempre lutou por maior equidade e equilíbrio entre os times do futebol brasileiro e seguirá, na Libra, defendendo firmemente suas posições”, informou a diretoria alvinegra nas redes sociais.
A adesão do Galo à Libra também tem relação com a futura SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do time mineiro.
O Banco BTG Pactual, um dos parceiros da Libra, tem cerca de R$ 168 milhões a receber do Atlético conforme o balanço financeiro do clube.
O BTG também alinhou um acordo de financiamento com o comando atleticano para potenciais investidores na SAF do Galo.
Além disso, Bruno Muzzi, CEO do Atlético, explicou que o acordo do clube com a Libra está relacionado com a estimativa de crescimento das receitas da futura liga e do valor estimado para cada um dos blocos.
“Se pegar os times da Libra e da Forte, quando vale o bloco da Libra? Vale R$ 1,5 bilhão. No Forte, vale R$ 500 milhões. O Atlético tem R$ 125 milhões na Libra. Na Forte, o Atlético receberia R$ 75 milhões. Então, tem uma diferença de R$ 50 milhões. E isso se perpetua por 50 anos”.
“Se houver maior valorização da Liga, esses valores se acentuam ainda mais. Então, o Atlético optou por olha nesse médio/longo prazo, que é pós 2025, para de fato tomar essa opção. Não estamos olhando no curtíssimo prazo”, Bruno Muzzi, CEO do Atlético.
LFF rebate: A decisão do Galo de deixar a LFF foi bastante contestada pelos integrantes do bloco.
Tão logo a mudança foi comunicada, Sérgio Coelho, presidente do Atlético, pediu desculpas aos clubes da Forte Futebol e prometeu trabalhar para a formação de um grupo único.
Sérgio foi um dos fundadores e líderes da LFF e chegou criticar publicamente a garantia mínima de Flamengo e Corinthians na Libra.
Em carta aberta, divulgada na semana passada, a Forte Futebol pediu para o Conselho do Atlético reconsiderar a ida do clube para Libra.
No documento, o bloco defende que o modelo adotado “traz vantagens significativas que beneficiarão o CAM (Clube Atlético Mineiro) em curto, médio e longo prazos”.
Sobre as contas citadas pelo CEO do Galo, Mário Bittencourt, presidente do Fluminense, um dos clubes integrantes da LFF, apresenta outros números.
“Atualmente, mesmo com um contrato fruto de negociação individual, os clubes da LFF representam 48% da receita do Brasileirão, ou seja, 925 milhões de um total de 1,921 bilhões. Outro dado importante é o valor das propostas feitas pelos investidores. Nelas estão presentes uma avaliação sobre qual bloco comercial vale mais. A proposta da Libra é 28% inferior à proposta da LFF. Isso reflete uma avaliação de cada investidor sobre o valor do bloco comercial com os clubes da Libra e o bloco comercial com os clubes da LFF”, disse o dirigente.
Renúncia?
Marcus Salum, presidente da SAF do América-MG, foi além. Em entrevista ao podcast “Sou Deca”, o dirigente classificou como “esdrúxula” a decisão do Galo de migrar para Libra e ainda afirmou que Sérgio Coelho quase deixou o cargo de presidente do Atlético por esse motivo.
O mandatário atleticano caminha para não tentar reeleição no clube.
“O Atlético achou uma forma de falar bonito o que ele precisava fazer. Muita coisa mudou. Fui chamado no Galo um dia sobre os critérios. E eles não estão próximos. Só vão ficar próximos se a liga aumentar em dobro (o valor da distribuição total das receitas de TV). Está errado. O Atlético tem problemas internos, percebi quais são. Tenho a minha convicção, mas quem sou eu, com a amizade que eu tenho dentro do Atlético, para expor isso?”, disse Salum
“Para mim, estão dourando uma pílula para tomar essa decisão que é esdrúxula. Tanto é que o Sérgio (Coelho) quase renunciou por causa dessa decisão” – afirmou Marcus Salum.
Qual seria o caminho?
A Libra conta neste momento com nove equipes da Série A, com potencial maior para atrair investidores.
Na projeção de Muzzi, a Libra estima capitalizar cerca de R$ 1, 5 bilhão na venda de direitos comerciais e de transmissão, contra R$ 500 milhões da LFF.
O objetivo da Forte Futebol é aumentar o número de integrantes do bloco para equilibrar as contas em nome do equilíbrio de forças entre os clubes nas futuras edições do Campeonato Brasileiro.
Para Marcus Salum, um grupo amplo, formado por 38 ou 39 clubes, tem condições de atrair o Flamengo, e assim formar uma só liga.
“Nós estamos fazendo dois grupos de venda de direitos de televisão. O futebol não vai melhorar assim. O futebol só vai melhorar se os 40 clubes estiverem na mesa e fizerem uma liga. Isso só não aconteceu porque ninguém teve poder sobre o Flamengo. E a minha tese, eu já falei com todo mundo que decide, temos que fazer 38, 39 clubes, e depois trazer o Flamengo. E não digo que isso seria impossível”.
A partir da próxima quinta-feira, o Conselho Deliberativo do Atlético vai votar se aceita ou não a constituição da SAF do clube.
A proposta envolve a venda de 75% da SAF por R$ 913 milhões para uma “holding”, que será controlada pelos 4R’s, grupo de empresários (os mecenas) que tem investido e aportado dinheiro no time, nos últimos anos.
Quem são os atuais integrantes da Libra:
“Atlético-MG, Bahia, Corinthians, Flamengo, Grêmio, Guarani, Ituano, Mirassol, Novorizontino, Palmeiras, Ponte Preta, Red Bull Bragantino, Sampaio Corrêa, Santos, São Paulo e Vitória”.
Quem são os atuais integrantes da LFF:
“Cruzeiro, Fluminense, Vasco, Athletico-PR, Botafogo, Coritiba, Goiás, Sport, Ceará, Fortaleza, América-MG, Avaí, Chapecoense, Juventude, Atlético-GO, Criciúma, Cuiabá, CRB, Vila Nova, Londrina, Tombense, Figueirense, CSA, Brusque e Operário”.
Ainda não assinaram:
Internacional, Náutico e ABC.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





