Beatriz Ferreira perde para irlandesa e conquista a prata no boxe.
Brasileira é derrotada pela irlandesa Kellie Harrington por decisão unânime dos juízes na decisão da categoria até 60kg do boxe.
A brasileira Beatriz Ferreira, campeã mundial de 2019, perdeu, neste domingo, para a irlandesa Kellie Harrington, ouro no Mundial de 2018, por decisão unânime dos juízes e conquistou a medalha de prata nas Olimpíadas de Tóquio na categoria até 60kg do boxe.
As duas atletas jamais tinham se enfrentado em uma competição oficial.
Kellie Harrington foi campeã mundial em 2018, quando Beatriz estava do outro lado da chave e parou nas oitavas de final.
Já Beatriz foi campeã em 2019, quando Kellie estava machucada e não competiu.
O início foi bem estudado, com Bia acertando dois bons golpes.
No segundo minuto, em uma trocação, a irlandesa conseguiu a acertar a brasileira.
A brasileira ficava no centro do ringue, enquanto a Kellie girando a sua volta.
Em um momento, Bia encurralou a rival nas cordas e conseguiu bons golpes.
Três dos árbitros deram vitória para a brasileira e dois para a irlandesa.
No segundo round, Beatriz seguiu no centro do ringue, enquanto Kellie ficava girando que nem um relógio em volta da brasileira.
O combate seguiu muito estudado, com as duas conseguindo se esquivar dos ataques da rival.
Para os cinco árbitros, a irlandesa venceu o round por 10 a 9, colocando uma pressão na brasileira para o ultimo round.
A irlandesa já tinha 20 a 18 de dois jurados, então Beatriz precisava ser quase unânime do terceiro assalto para levar o ouro.
Kellie sabia da vantagem e tentou amarrar a luta, enquanto Bia conseguia alguns golpes.
No fim, os cinco árbitros deram a vitória para a irlandesa, que se destacou nos contra-ataque, por 10 a 9.
Beatriz Ferreira disputou, em Tóquio, sua primeira edição das Olimpíadas, mas, há cinco anos, esteve no Rio de Janeiro, como sparring de Adriana Araujo, brasileira que, na época, era titular da seleção.
No ciclo olímpico, Beatriz foi campeã dos Jogos Sul-Americanos em 2018, na Bolívia, dos Jogos Pan-Americanos em 2019, no Peru, e do Campeonato Mundial, também em 2019, realizado na Rússia.
Garagem na Bahia, ringue em Minas, títulos pelo mundo: o caminho de Bia Ferreira até a prata.
Sob olhar do pai-treinador, menina cresce entre sacos de areia e manoplas, acumula experiência e vitórias e chega ao panteão dos grandes atletas olímpicos do boxe.
Medalha no peito.
Bia Ferreira conquistou a prata e a glória olímpica na boxe, feito inédito para uma mulher na modalidade.
O cartel de experiências, vitórias e títulos de Bia agora está completo.
Mas para isso acontecer, foram necessárias duas décadas de trabalho, dedicação e dificuldades.
Sob o olhar atento do pai-treinador, a mais mineira de todas as baianas nasceu, cresceu, se desenvolveu e hoje escreve e vive a história dela no ringue, com punhos cerrados, golpes certeiros e o carisma de quem se preparou a vida inteira para merecer um lugar no panteão dos medalhistas olímpicos.
O “berço”, em uma garagem de Salvador: Tudo começou na Bahia, onde uma menina nasceu com DNA vencedor.
Bia é filha de Raimundo Oliveira Ferreira.
Mais conhecido como Sergipe, ele foi tricampeão baiano e bi do Brasileiro, nos pesos-galo e supergalo, além de ter sido sparring do tetracampeão mundial Acelino Popó Freitas por cinco anos.
Além de ser atleta, Sergipe se dedicava a ensinar o esporte na garagem de casa, no Bairro Nova Brasília, em Salvador.
Entre uma sessão e outra com os garotos da região, uma menina de quatro anos descia as escadas, atraída por um barulho específico que vinha da base de treinamento.
“Eu lutava, e ela sempre gostou, acompanhou. Ela sempre ia junto com a mãe e nisso foi pegando amor pelo esporte. A gente morava em cima e a garagem era em baixo, onde treinavam os meninos da rua. Quando ouvia o barulho do saco de areia, a Beatriz descia para assistir aos treinos”, contou Sergipe.
Com o passar do tempo, a pequena Bia se apaixonou pelo trabalho do pai, dando um soco aqui, outro ali.
No entanto, ela começou a treinar de maneira mais consistente a partir dos oito anos de idade.
Bia sobe no ringue e se torna boxeadora em Juiz de Fora: Depois do fim da parceria como sparring de Popó, Sergipe teve a oportunidade de fazer uma luta e ficar três meses em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Ele venceu o confronto, agradou ao dono de uma academia local e ficou definitivamente na cidade, para onde levou a filha Bia, de 11 anos, em 2004.
A partir daí, Sergipe começou a lapidar o talento dela, enxergando um potencial grande a ser explorado.
Ele colocou a filha em uma academia para treinar com meninos, já que, segundo o próprio Sergipe, não havia lutadoras do nível da jovem promessa.
Através de esforços feitos pelo pai e pessoas que conheciam o trabalho na academia, Bia passou a lutar em competições nacionais.
No entanto, o patamar da pugilista mudou quando ela foi notada pela seleção brasileira.
“Do nada, apareceu essa menina, vindo sem experiência de luta, batendo em gente que tinha 20, 30 combates. Fomos convidados para participar de um trabalho com a seleção brasileira. A Adriana Araújo iria lutar e precisava de alguém para ajudar na categoria dela. Bia foi e, a partir disso, conseguiu conquistar o pessoal da seleção. Bia se destacou, começou a viajar para fora do país e hoje é só alegria”, contou Sergipe.
Mesmo com a base de treinamentos sendo em outras cidades, organizada pela Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), Beatriz sempre manteve contato com Juiz de Fora, onde o pai vive e trabalha.
A pugilista viajou para a cidade para treinar com o pai, tanto nas semanas que antecederam o Pan de Lima quanto após a decretação da pandemia da Covid-19, em março de 2020, quando Bia buscava manter a forma física com o adiamento dos Jogos de Tóquio, em meio ao melhor momento da carreira.
Bia Ferreira, do Brasil e do mundo: As palavras de Sergipe casam com o cartel de Beatriz Ferreira, que teve um ciclo olímpico extremamente vencedor.
Além da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima e do título mundial, ambos em 2019, Bia se consolidou como postulante à medalha olímpica com outras conquistas internacionais.
Bia ganhou torneios na Polônia, Sérvia, República Tcheca, Alemanha e mais de uma vez na Bulgária, conquistando o Strandja, em 2019 e 2021, e o Torneio dos Balcãs, em 2017 e 2020, entre outros torneios no país e mundo afora.
Também foi prata no Pré-Pan, resultado que garantiu a ela a oportunidade de disputar os jogos Pan-Americanos no Peru.
Mesmo com méritos próprios, Beatriz Ferreira nunca deixou de agradecer e exaltar o trabalho do pai na vida dela.
Em entrevista dada ao globo esporte, em 2019, semanas depois de ser ouro no Pan de Lima, ela disse:
“Ele é o grande responsável por tudo isso. Foi vendo ele treinar, a paixão dele pelo boxe e a dedicação no dia a dia, que me apaixonei pelo boxe. Vendo o amor dele, criei o meu amor. Ele é o meu herói e hoje dou orgulho para ele. É muito bom trabalhar com o que a gente ama porque a gente não trabalha, se diverte o tempo inteiro”.
Embora a relação mais intensa seja com o pai, Bia não se esquece de valorizar a figura da mãe.
Sergipe e Suzana Pereira Soares, que mora em Salvador, são separados, mas a pugilista considera que o grande suporte para ela ser quem é veio dos dois, no ambiente familiar.
“Só posso agradecer pelos pais que eu tenho. Hoje em dia sou uma boa pessoa, tenho caráter e graças à educação que tive em casa. Sempre me apoiaram, sempre estiveram comigo em todas as decisões que tomei, com os puxões de orelha. O que tinha que ser dito, era dito. E eu sou muito amiga dos meus pais e fico muito contente de ter essa relação com eles”, concluiu.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





