No meu primeiro dia de vida, veio tanta gente visitar que chamaram o evento de “inauguração”.
A festança durou dois dias e nem nome eu tinha ainda, na época me chamavam de Estádio Municipal.
Acho que pouca gente teve tanta saudação quando nasceu.
Eram milhares de pessoas, filas intermináveis, personalidades, prefeito, presidente, cardeal.
Então, você imagina o tipo festeiro que me tornei a partir de 16 de junho de 1950.
No dia seguinte, claro, teve a peleja Seleção Carioca X Seleção Paulista.
Os paulistas venceram por 3 a 1, mas tudo bem.
Afinal, apesar de nascido e criado no Rio de Janeiro, eu pertenço a todas as torcidas do Brasil.
Claro que, como qualquer amante do futebol, também tenho lá as minhas preferências e dou aquele abraço mais apertado em alguns que em outros.
A verdade é que papai do céu apontou o dedo para mim e disse: “esse é o cara”.
Então, eu sou esse cara: Estádio Jornalista Mário Filho, vulgo Seu Maraca, carioca, com 70 anos de histórias para contar.
É sabido que tive muitas alegrias na vida.
A maioria delas passou na TV e tudo, mas nem todas as recordações são boas.
Teve drama também.
Começou logo no dia do meu primeiro mesversário.
Quase 200 mil pessoas vieram para o que deveria ter sido uma “grande celebração”.
Se todo mundo carrega um trauma da infância, o meu foi nesse dia.
Nunca saiu da minha cabeça aquele momento em que o ponteiro uruguaio, Alcides Ghiggia, fez o segundo gol contra o Brasil na final da Copa de 50.
Além de levarem a taça, ainda me inventaram um apelido: É, mas eu nunca fui esse cara que leva o bullying para casa.
O jogo só acaba quando termina.
Esse foi só o início da história.
VIDA DE NOVELA: Às vezes me pergunto se minha vida não foi escrita por algum autor de novela, porque, olha, o que tem de fofoca envolvendo meu nome por aí é brincadeira.
Para poupar o tempo do leitor, vou resumir a história.
O mocinho da trama era o jornalista Mário Filho, que já me defendia antes mesmo de me conhecer.
E o anti-herói era o então vereador Carlos Lacerda, que queria me colocar lá em Jacarepaguá.
Nada contra o bairro, mas, cá para nós, é longe pra caramba do coração da cidade.
Sabemos bem quem venceu o primeiro ato, mas Lacerda nunca aceitou a derrota e quis o destino que ele se tornasse governador quando completei 10 anos.
Pouco tempo depois, em janeiro de 1961, logo que assumiu o cargo, ele veio me fazer uma visita nada amistosa.
O homem cismou com as minhas pastilhas de cerâmica azul.
Disse que era “complexo de banheiro de luxo” e que o material era “caro demais para revestir um colosso como este”.
Dizem que, se você coloca vassoura atrás da porta, a visita vai embora logo, mas eu até me arrependi de ter feito isso, porque foi ele quem marcou minha entrada na adolescência.
Lacerda mandou concluir o que estava inacabado aqui desde 1950 e colocar a outra metade de pastilhas que faltaram, além de substituir as que tinham se soltado.
Quem diria, não é mesmo? Aí, sim, me senti pronto para uma puberdade sem trauma e não seria mais alvo dos humoristas da época, que me chamavam de “grande e mal acabado”.
E ainda para o desespero dos haters, esse não foi o único presente que ganhei naquele ano.
Num jogo contra o Fluminense, no dia 5 de março de 1961, Pelé marcou um gol tão inesquecível que fiz questão de pendurar uma placa em homenagem.
Depois disso, toda vez que alguém fazia um gol bonito, chamavam de “gol de placa”.
Rei que é rei tem castelo, é ou não é?
Então, foi aqui também que Pelé marcou seu milésimo gol.
O palco perfeito para reunir toda a corte. Afinal, aqui ele se sentia em casa.
JUVENTUDE SEM LIMITES: Se tem alguém que pode dizer que aproveitou a vida, esse alguém sou eu.
Quantas festas, quantas lembranças, quanta gente passou por aqui na minha juventude.
Foram inúmeras tardes naquele ponto de encontro, perto da estátua do Bellini.
Quanta coisa o capitão de 58 testemunhou ali do alto segurando a Taça Jules Rimet.
Seja nas visitas do Papa ou nos shows dos Rolling Stones eu estava sempre ligado na potência máxima.
Quantas vezes cantamos os versos de Jorge Ben?
E aquela que o Neguinho da Beija-Flor compôs sobre aqueles domingos aqui?
Fico arrepiado só de lembrar.
Vivi cada momento dessa época ao extremo e não foi só uma vez que me pegaram abandonado ao relento tijucano ou que acordei com um cachorro me lambendo, para não dizer o pior.
É, nem quem é de concreto sai disso ileso.
Se a gente não cuida da saúde, as artérias entopem e é preciso tomar alguma atitude.
Por isso, depois dos 40 tive que passar por algumas operações para desobstrução de artérias e colocação de estentes.
Nada grave, foi só mesmo para melhorar a qualidade de vida durante a meia idade.
Só que esse alargamento das rampas de acesso e as novas pilastras que colocaram abaixo da arquibancada não foram suficientes para evitar aquele que foi o pior dia da minha vida.
Assim como no meu trauma de infância, mais uma vez era dia de festa, outra final, desta vez do Campeonato Brasileiro, e com dois clubes de casa.
Lotação completa, não poderia estar mais feliz, mas parte da grade da arquibancada cedeu e foi uma tragédia.
A lição que fica para os mais novos é essa: aproveitem a vida, mas nunca deixem de se cuidar.
CINQUENTÃO: Quando a gente chega em certa idade, começa a dar mais valor ao conforto e pensa que tudo vai ficar mais tranquilo a partir dali.
Só que o povo quer é festa!
Então, ao invés de descansar, o bicho começou a pegar mais seriamente.
Quando fiz 50 anos, finalmente tomei juízo e me organizei melhor.
Afinal, tinha que arrumar a casa para receber o Mundial de Clubes, um evento internacional.
Então tive vergonha na cara e troquei os móveis, pintei as paredes e subi umas lajes para deixar os parceiros com visão de camarote.
Só que as mudanças que, no começo eram apenas para dar mais conforto, foram ficando cada vez maiores. Já deu para ver que o século XXI seria diferente.
Trocar a cor aqui e ali é até bom de vez em quando, mas….tirar a geral foi um golpe.
Por essa eu não esperava e não tive escolha.
Será que acharam que, com a minha idade, eu não tinha mais energia para aguentar toda aquela festa em pé?
Nem tenho palavras para descrever quanta diversão vivemos naquele setor mágico.
Grandes histórias, grandes emoções, grandes amizades, a Geral era o resumo da minha personalidade, a essência que cultivei durante todos esses anos.
Ora, foi por causa dela que eu sou o que sou.
E aí, ainda com 57 anos, me obrigaram a ficar sentado.
Pode uma coisa dessas?
Foi na mesma época que inventaram também de me arrumar um smartphone.
Logo eu, que já estava acostumado a placares mais simples que entregavam o básico e ainda divertiam o pessoal.
De repente, me deram uns telões enormes, cheios de informação.
Essas mudanças foram feitas para os Jogos Pan-Americanos de 2007.
A gente fica nostálgico com algumas coisas, reclama, diz que antigamente era melhor, mas no fim das contas acaba se adaptando.
Fazer o quê?
TAPA NO TELHADO: Como vocês sabem, Copa do Mundo é um tema traumatizante para mim.
Nunca superei aquela final de 1950.
Então eu gelei quando soube que a final seria por minha conta novamente.
Passou um filme na minha cabeça e pensei: “Bom, dessa vez, pelo menos, vou me arrumar melhor”.
E foi o que eu fiz.
Dei um tapa no telhado, sim.
Implante, sem vergonha de admitir.
O tempo chega para todos.
E as mudanças não pararam por aí.
Eu achando que era só um check-up e um tratamento capilar, e vieram com retroescavadeira, bate-estaca, concreto e silicone.
Transformaram toda a arquibancada, refizeram quase tudo.
Era 2013 e eu estava brilhando, moderno, me sentindo um garotão de 63 anos, com smartphone de última geração, cheio de aplicativos, pronto para as festas que viriam.
A primeira foi a Copa das Confederações e o Brasil saiu campeão.
Fiquei feliz, mas todo mundo sabe que no Mundial a história é outra.
ANOS DE TERAPIA: Um ano depois, ele chegou, e a final seria aqui novamente.
Flashs do Ghiggia pulsavam na minha cabeça todo dia.
Não sei se “felizmente” ou “infelizmente” o Brasil não jogou aqui em 2014.
Depois do que aconteceu com meu primo lá de Minas Gerais, tenho até vergonha dos meus lamentos.
Imagine quantos anos de psicólogo o Mineirão vai precisar para superar aquele 7 a 1 na semifinal da Copa.
Ficou marcada a final, então, entre Alemanha e Argentina.
E pelo menos uma coisa eu posso agradecer dessa história de 2014: os Hermanos não foram campeões do mundo aqui.
Era só o que faltava.
Os alemães mereceram aquela taça, e eu acho que fui um belo palco para aquela final.
O dia estava bonito, o jogo foi bom, era um domingo… não tenho do que reclamar.
RIO 2016: Dois anos depois, um dos dias mais especiais: a abertura dos Jogos Olímpicos.
Era a primeira vez que o evento acontecia na América do Sul.
Foi um verdadeiro privilégio quando me coroaram com a pira olímpica. Era como ganhar uma medalha de ouro.
E, novamente, as finais das competições de futebol seriam aqui.
E dessa vez não teve como evitar.
A final do masculino estava confirmada: Brasil X Alemanha.
Tudo bem, eu sei que Deus disse que eu sou o cara, mas haja coração!
O jogo só foi resolvido na disputa de pênaltis!
Eu já fiz cirurgia, poxa!
Será que não pensam na minha idade?
Quando a cobrança derradeira entrou, foi inesquecível ver as torcidas de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco comemorarem a medalha de ouro do Brasil juntas depois de tantos anos repletos das mais diversas emoções que se pode imaginar.
E eu finalmente pude ver o Brasil no topo do mundo.
Não importa quantas vezes uma pessoa venha aqui.
Ninguém sai a mesma pessoa que entrou.
Este colosso pode ser concreto, mas só se sustenta com as vibrações, as histórias e a energia acumulada durante todos estes anos de histórias.
Mas não pensem que acaba por aí. Ainda tem algumas pendências que preciso “libertar” da minha lista.
Texto: Fabio Penna
Design: Débora de Deus e Mario Leite
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Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





