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ARBITRAGEM BRASILEIRA. NEUZA BACK. EDINA ALVES.
Análise

Mais que pioneirismo

Edina Alves e Neuza Back celebram pioneirismo no Mundial de Clubes do Catar.

Árbitra e assistente brasileiras, destaques na Copa Feminina de 2019, vão compor primeiro trio de mulheres em uma competição adulta masculina da FIFA.

Elas usam chuteira e uniforme completo, correm durante os 90 minutos e colecionam “troféus” ao longo da carreira.

O próximo já é ansiosamente aguardado, o do Mundial de Clubes.

A árbitra Edina Alves e a assistente Neuza Back viajam na próxima quarta-feira (27) para fazer história no Catar: elas vão compor o primeiro trio de arbitragem feminino em uma competição adulta masculina da FIFA.

De lá, esperam trazer a bola do jogo em que trabalharem, uma tradição nas partidas mais importantes da carreira, para se juntar às nove que já decoram a parede do apartamento que elas dividem em Jundiaí-SP.

“Elas são as minhas medalhas, meus xodós. A bola da Série A do Brasileiro, que foi conquistada com muito trabalho, do Mundial Feminino (França-2019), que nós temos quatro. É uma honra, um troféu para nós. Não tenha dúvida que tanto eu quanto a Neuza vamos buscar dar o nosso melhor para representar o nosso país muito bem e trazer mais uma bolinha para a coleção”, disse Edina Alves em entrevista ao globoesporte.

Para as duas, trabalhar no Mundial de Clubes é um momento especial em uma trajetória já repleta de conquistas.

Edina e Neuza estiveram juntas em quatro partidas da Copa do Mundo Feminina de 2019, na França, incluindo a semifinal entre Estados Unidos e Inglaterra.

Agora, são pioneiras na história da arbitragem feminina mundial.

“Se eu pensar só na minha carreira, eu iria falar que é um momento único. Mas junto com a gente estão várias mulheres que lutam para vencer na vida, e também pela igualdade de gêneros. Que saem de casa todo dia para trabalhar nas diversas categorias e atividades, e querem dar o seu melhor.”

Edina Alves, árbitra brasileira, para Neuza, a participação inédita das mulheres em um Mundial adulto masculino mistura orgulho e responsabilidade:

“A gente tem que corresponder. Estar lá só para levantar uma bandeira não tem sentido, só porque “Ah, vamos levar mulheres”.

Não, o futebol é um grande esporte, merece grandes arbitragens, e se é uma mulher que vai conseguir dar uma grande arbitragem no Mundial, que a gente esteja lá.

A presença feminina dirigindo jogos importantes do futebol masculino tem aumentado nos últimos anos.

A francesa Stéphanie Frappart é uma das principais representantes dessa “invasão”: árbitra da final da última Copa Feminina, ela fez história ao ser a primeira mulher a dirigir um jogo da Champions League masculina (Juventus 3 X 0 Dínamo de Kiev, em dezembro de 2020) e a primeira a apitar no Campeonato Francês masculino.

Na Alemanha, Bibiana Steinhaus passou a apitar na Bundesliga masculina em 2017, e ano passado comandou a final da Supercopa da Alemanha (Bayern de Munique 3 x 2 Borussia Dortmund).

“Eu recebi mensagens da Bibiane, da Stephanie, que estava comigo no Mundial da França. A gente está num processo, desde 2017 a Fifa vem colocando mulheres nas competições (a uruguaia Claudia Umpierrez foi quarta árbitra no Mundial Sub-17 masculino de 2017 e árbitra central em três jogos na edição de 2019) – afirmou Edina, que foi quarta árbitra no Mundial Sub-17 de 2019, no Brasil”.

Palmeiras e Santos decidem última vaga no Mundial: além de Edina e Neuza na arbitragem, o Brasil também terá um representante na busca pelo título: Palmeiras e Santos decidem a Taça Libertadores da América dia 30 de janeiro de 2021, no Maracanã, definindo o último classificado no Mundial.

A competição no Catar começará no dia 4 de fevereiro, dessa vez diretamente nas quartas de final, com dois jogos: Tigres (México) X Ulsan Hyundai (Coreia do Sul) e Al Duhail (Catar) X Al Ahly (Egito).

O Auckland City, que faria o jogo de abertura contra o Al Duhail, desistiu do torneio para preservar o isolamento da Nova Zelândia durante a pandemia de Covid-19.

O campeão da Taça Libertadores da América vai enfrentar na semifinal o vencedor de Tigres (México) X Ulsan (Coreia do Sul).

Na outra chave, o ganhador das quartas terá pela frente o Bayern de Munique, campeão europeu.

Neuza, que fala alemão, não esconde certa ansiedade para saber o jogo em que elas vão trabalhar no Mundial.

“Esse sentimento é natural, mas a gente precisa controlar isso, porque só atrapalha. Mas é claro que a gente já fica acompanhando quais as equipes que estão classificadas e você já fica assim, será que eu vou fazer esse jogo?”

Paranaense de Goioerê, Edina Alves Batista tem 41 anos, quase a metade dedicada à arbitragem.

Foi assistente por 15 anos, e em 2014 se tornou árbitra principal.

Em 2019, dirigiu o primeiro jogo na Série A do Brasileiro masculino, CSA-AL X Goiás-GO, e já soma 14 na competição.

Aos 36 anos, Neuza Inês Back, da cidade catarinense de Saudade, já é “experiente” em jogos masculinos: a assistente tem 95 partidas em 12 temporadas atuando no Brasileirão, atuou no jogo de ida da final da Copa do Brasil de 2019, entre Athletico-PR e Internacional-RS, e ano passado trabalhou pela primeira vez ema partida masculina internacional, Peñarol (Uruguai) 1 X 1 Vélez Sarsfield (Argentina), pela Copa Sul-Americana.

“Segundo um levantamento que foi feito, eu sou a mulher que mais tem jogos numa divisão principal masculina do seu país. Se for somar todos os jogos que eu tenho, Copa do Brasil, Série B, Série A do Brasileiro, eu tenho muito mais jogos no masculino que no feminino”, disse ela.

Entrosamento é trunfo de Edina e Neuza: além da experiência internacional, as duas brasileiras têm um trunfo extra: entrosamento.

Na preparação para o Mundial Feminino, elas passaram a dividir um apartamento em Jundiaí, já que ambas são hoje filiadas à Federação Paulista.

A residência acabou virando um Centro de Treinamento informal, com área de estudo e avaliação dos jogos e até “academia”: no início da pandemia de Covid-19, varanda e sala foram adaptadas para elas manterem a forma, como conta Edina.

“O apartamento é mais um QG de estudos, para a gente se dedicar à arbitragem. A gente transforma toda a nossa vida em prol de evoluir na profissão.”

Ir ao Mundial ao lado da amiga torna a conquista ainda mais especial para Neuza.

“É muito legal, porque a gente já tem um entrosamento. Eu já participei de competições com árbitras de outros países e não é igual, é muito mais bacana quando a gente consegue ir com alguém do seu país e alguém em que a gente confie”, comentou a assistente.

No último sábado (16), elas foram aprovadas no temido teste físico da FIFA, necessário para garantir a vaga no Mundial.

Juntas, Edina e Neuza realizaram a prova no Complexo Esportivo Doutor Nicolino de Lucca, em Jundiaí, e cumpriram o circuito no tempo exigido, que é o mesmo para homens e mulheres, prova já feita também pela assistente argentina Mariana de Almeida, que completará o histórico trio de arbitragem feminino no Mundial de Clubes.

“Acho justo nós fazermos a mesma prova física que os homens. O atacante não vai correr menos porque ele vai olhar para a lateral e tem uma mulher. Se eu quero trabalhar com qualidade, eu preciso acompanhar a jogada dele”, opinou Neuza, que fez a prova primeiro e, depois, acompanhou e incentivou a amiga.

As duas também estavam juntas quando o diretor de arbitragem da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o ex-árbitro Leonardo Gaciba, ligou para dar a notícia de que elas estavam convocadas para o Mundial de Clubes.

“A Neuza estava dirigindo, e eu do lado, a gente desceu do carro, se abraçou, gritou e comemorou. É como se fosse uma convocação para a seleção para jogar um Mundial, é a mesma emoção”, contou a árbitra.

Depois do Mundial de Clubes, os próximos sonhos de Edina e Neuza misturam futebol feminino e masculino: ir às Olimpíadas de Tóquio este ano (Neuza já trabalhou na Rio-2016) e ao Mundial Feminino de 2023, na Austrália e Nova Zelândia, e quem sabe, em outro passo inédito para as mulheres, voltar ao Catar para a Copa do Mundo de 2022.

“A cereja do bolo seria, sim, participar do Mundial em 2022, no Catar. Acredito também que vai depender bastante do nosso desempenho agora. É um teste, sim. Imagino que a gente está abrindo essa porta, e vai se esforçar para deixar ela aberta”, afirmou Neuza.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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