Se os Estaduais forem cancelados, a “Taça Serrada” de Rio Grande pode servir de inspiração.
Em 1940, uma taça foi cortada ao meio na cidade de Rio Grande-RS.
A lenda falava em empate interminável, mas a verdade é que se tratou de um agradecimento pela “lealdade” entre adversários, unidos contra um terceiro rival.
Não é remota a possibilidade de que os campeonatos estaduais de 2020 (ou pelo menos parte deles) sequer sejam retomados devido à pandemia.
Nos estados em que pelo menos um turno teve término, a saída de declarar o vencedor desse turno como campeão talvez seja óbvia, mas para os outros em que o perrengue estava completamente aberto existe um caso que pode servir de enviesada inspiração: em 1940, na cidade de Rio Grande-RS uma taça foi simplesmente CORTADA ao meio, com serra e tudo, e hoje as duas metades repousam nos museus de São Paulo e Rio Grande.
Após décadas entre crendices e ficções envolvendo o sucedido, prevaleceu a verdade forjada a maçarico.
Antes de mais nada, é preciso salientar que Rio Grande é uma praça histórica do futebol gaúcho.
Se hoje não há representantes da cidade na primeira divisão, na época em que sucedeu o causo a situação era bem diferente.
Com período de poucos anos, os três clubes rio-grandinos haviam levantado o troféu estadual: São Paulo (1933), Rio Grande (1936) e Rio-Grandense (1939).
O futebol disputado nos gramados ainda amadores da Noiva do Mar, como é conhecida a cidade do sul do Estado, batia de frente com os clubes de Porto Alegre e com as forças de outros centros, como Bagé ou a vizinha Pelotas.
Todos os clubes da cidade já haviam construído tradição no futebol, além do Rio Grande, fundado em 1900, clube mais antigo do Brasil, o São Paulo nascera em 1908 e o Rio-Grandense um ano depois.
Mas a máquina de levantar taças na época era o Rio-Grandense, não apenas porque vencera o Estadual do ano anterior, mas pelos quatro Citadinos conquistados em sequência.
E o Citadino em Rio Grande sempre foi coisa muito séria, muitas vezes inclusive servia de primeira fase do Gauchão.
Neste ano, após um extenso hiato, a disputa foi retomada, sempre com grande apelo na cidade portuária, onde vivem mais de duzentas mil pessoas.
Os clássicos da cidade são conhecidos como Rio-Rita, entre Rio Grande e São Paulo (Rita como referência à Caturrita, apelido desse último); o gracioso Rio-Rio, entre Rio Grande e Rio-Grandense; e o Catu-Rio, entre São Paulo e Rio-Grandense, que às vezes também é chamado de Rio-Rita.
Como acontece nas cidades em que há mais de dois rivais, a maior rivalidade é sazonal e migra de um endereço a outro, conforme a maré, no caso de Rio Grande, a maré da Praia do Cassino, propagandeada como a maior do mundo em extensão.
E os títulos em sequência obtidos pelo Guri Teimoso, apelido do Rio-Grandense, revoltaram Rio Grande e São Paulo, clássicos rivais que resolveram se unir para acabar com a farra do terceiro elemento futebolístico da cidade.
Decidiram boicotar a disputa municipal em 1940, não comparecendo aos jogos enquanto mantinham uma agenda de amistosos com clubes de municípios vizinhos.
O Rio-Grandense se apresentava, mas adversário não havia. Em tempos de Segunda Guerra, a junção entre os clubes ficou conhecida como Eixo, e de fato o cenário se tornou um tanto bélico, tanto que foi necessário percorrer os mais de trezentos quilômetros até Porto Alegre para tentar contornar a situação na sede da federação gaúcha, como detalhado nesse texto de Hector Werlang publicado há alguns anos aqui no Globo Esporte.
Para apaziguar os ânimos e retomar a vida futeboleira às margens da Lagoa dos Patos, organizou-se a Taça Confraternização.
E nesse ponto semeou-se com imaginação o terreno onde nasceria uma das grandes lendas do futebol gaúcho.
As conversas nas bodegas e esquinas trataram de perpetuar a versão de que, após vários empates e não menos intermináveis cobranças de pênaltis, São Paulo e Rio Grande haviam decidido dividir o troféu, e não apenas forma metafórica.
Como a maioria das testemunhas não pisava mais no gramado terreno, e o acordo de cavalheiros parecia bastante palatável, a peça de ficção popular e espontânea perdurou por bastante tempo.
Mas nem havia decisão por pênaltis na época.
No começo da década, durante a produção do livro Sport Club São Paulo, Um século de futebol popular, o jornalista Willy César resolveu se debruçar sobre essa lenda do sul que bem poderia ter sido escrita por uma mistura de Eduardo Galeano com Simões Lopes Neto.
E suas pesquisas desencavaram os resultados daquele triangular e a evidência inescapável de que o São Paulo havia sido campeão, após uma vitória e um empate.
A divisão física do troféu de fato acontecera, como afirmou, no texto citado acima, o filho de Emidio Mondini, mecânico-chefe da viação férrea e torcedor do São Paulo, responsável por desossar a taça com a perícia dos açougueiros.
No estaduais de hoje, com cerca de vinte clubes, as taças seriam picotadas, e nenhum centímetro a menos seria perdoado.
A obra-prima metalúrgica de Mondini levou vários dias, pois era realmente tarefa para um artista, e enfim a taça saiu da oficina dividida em duas metades perfeitas condenadas à eterna distância.
Não foi motivada, no entanto, por motivos nobres como a partilha da glória.
O São Paulo decidiu presentear o rival com cinquenta por cento do símbolo da conquista como agradecimento pela lealdade demonstrada no complô contra o Rio-Grandense.
E a entrega do presente ao Rio Grande aconteceu de forma muy discreta, uma comitiva silenciosa que passou despercebida até pelos jornais da época, o que permite suspeitar que a motivação não era exatamente reflexo da fraternidade que nomeou o torneio.
Na melhor das hipóteses, uma troça com o terceiro irmão, que andava muito atrevido.
Reportagem: Blog Meia Encarnada
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





