Do amador ao acesso à Série C: Floresta se transforma e reaviva memórias do neto do fundador.
Amor de uma família cearense pelo futebol criou o clube que no sábado (23) lutará por uma vaga na final da Série D.
E olha que a temporada começou com um rebaixamento no estadual…
Quando José Renato Sátiro Santiago Júnior era criança, a viagem de férias certa era para Fortaleza, para o lugar preferido: o quintal na casa dos avós.
A brincadeira de jogar bola com os primos ganhava um tom especial quando o neto do meio ia até o gancho onde ficava pendurada a rede do avô e pegava a chave que abria os portões do estádio.
O avô Felipe Santiago, marido de Noelzinda, era um apaixonado por futebol e construiu um campo para que o “Às de Ouro” pudesse treinar.
A equipe depois passou a se chamar Floresta Esporte Clube.
Em 2021, o time conseguiu o inédito acesso à Série C do Campeonato Brasileiro.
“Desde moleque, chegava a Fortaleza e tinha um estádio no quintal dos meus avós. Ali era um terreno grande, onde as pessoas jogavam futebol. O time mudou para Floresta porque minha avó dizia que aquilo ali parecia uma floresta, tinha muitas árvores”, contou José Renato, ao Globo esporte.
O time fundado em 9 de novembro de 1954 treinava nos campos no quintal da casa de Felipe.
Era comum ver os meninos batendo uma bolinha no fim de tarde, entre um jogo e outro.
Com a reforma do estádio Presidente Vargas, o lugar herdou as antigas arquibancadas da praça esportiva, doadas pela prefeitura de Fortaleza.
Assim, o sítio Floresta, às margens da lagoa do Mondubim, transformou-se no estádio Manoel Sátiro, em 21 de abril de 1965.
“Meu avô cercou o terreno com as arquibancadas, que eram de concreto armado, e pagou da aposentadoria dele para murar o campo e criar o estádio. O nome era uma homenagem ao pai da minha avó”, explicou José Renato.
A camisa amarela: Com o time montado, restava o uniforme para o Floresta entrar em campo.
Felipe Santiago viajou até São Paulo para comprar as camisas para o time do coração.
O plano era que fosse verde e branco, mas tudo mudou ao ver as amarelinhas estendidas.
O Floresta se vestiria como o Brasil.
“Em 1954, a Seleção começou a jogar de amarelo, porque em 1950 o Brasil perdeu a Copa. Meu avô comprava as camisas em São Paulo. Não tinha lojas esportivas no Ceará, e eles compravam camisas de times que já existiam. O meu avô comprou a da Seleção Brasileira. O Floresta foi o primeiro time a jogar de camisa amarela”, disse.
Foi também com o contato com o avô, o time e o futebol que nasceu outra paixão de José Renato: colecionar.
“Desde moleque, o Floresta é meu avô. Ele tinha uma coleção de jornais que colocava do lado da rede dele, onde guardava todas as notícias do Floresta. Quando eu ia de férias, tinha acesso a esses jornais. Meu acervo começou com eles”.
Hoje com 50 anos, o neto do fundador tem o maior acervo de livros de futebol do mundo, com quatro mil e 500 exemplares e 25 mil itens.
Além disso, escreve sobre o esporte e se preocupa em manter viva a história do time que andou muito até chegar à Série C do Campeonato Brasileiro.
“A história do clube, sem falsa modéstia, é muito fruto dos valores que foram perpetuados pelo meu avô e pela minha avó. O Floresta não é só o clube que está na Série C, tem uma história rica e valorosa. É uma uma longa história, é um time tradicional, de 1954, não nasceu em 2014. Muitos nomes do futebol cearense saíram do Floresta”.
O caminho até a Série C: Felipe Santiago faleceu em 1 de junho de 1987, e o estádio ficou sob os cuidados de um dos filhos, Silvio Sátiro.
Depois da partida de Noelzinha, em 1996, o familiares passaram a frequentar menos o lugar.
“Os primos não se encontravam mais. Foi natural que se esvaziasse. O Floresta começou a ser cuidado por quem morava perto, a estrutura sempre ficou disponível. A família acabou se afastando mais do futebol, invadiram o terreno e houve o interesse do Teixeira”.
Em 2014, o empresário Sérgio Teixeira fez uma proposta pela compra do terreno e do clube. Roberto Sátiro aceitou.
O time, até então era tradicional no futebol amador, ganhou forças para se profissionalizar. Passou, então, a se vestir em verde e branco, como o desejo do primeiro dono.
A folha salarial é R$ 400 mil mensais para comissão técnica, elenco e funcionários do Centro de Treinamento.
As mangueiras e pés de sapoti deram lugar aos campos para treinos.
O terreno de 65 mil m² ganhou um prédio-sede, alojamentos, três campos oficiais, dois soçaites, academia e vestiários.
O espaço é referência no estado e já foi utilizado para a preparação de equipes visitantes na disputa da Série A, como o Cruzeiro em 2019.
“É uma estrutura que dá condições com campos, fisiologia, tem profissionais capacitados em todas as áreas e facilita o bom trabalho. Depois do acesso, há uma necessidade de melhora natural. Afinal, a exigência aumenta, mas o clube está mobilizado em melhorar ainda mais as condições para que tenha um legado desse acesso”, projetou Leston Júnior, treinador do Floresta na campanha da Série D.
Queda no estadual, acesso na Série D: O time disputou a terceira divisão do Campeonato Cearense em 2015 e alcançou de imediato o acesso à Série B do estadual como vice-campeão.
Após dois anos, conseguiu novamente a vice-liderança do campeonato com uma grande campanha e chegou à elite do Cearense.
Além disso, fez história vencendo o Fortaleza na final da Taça Fares Lopes e garantindo a vaga na Copa do Brasil 2018.
Na competição nacional, o Floresta lutou até o fim, mas foi derrotado por 2 a 0 pelo Botafogo-PB e se despediu ainda na primeira fase.
Em 2019, não conseguiu o acesso para Série C do Brasileiro após perder para o Jacuipense nas quartas de final.
O primeiro semestre de 2020 também guardou notícias amargas para o Verdão, que terminou a Série A do Campeonato Cearense na penúltima posição e foi rebaixado.
Para a Série D, o Floresta se reformulou: buscou reforços, apostou em um novo treinador que já acumulava dois acessos no currículo e atingiu a meta após vencer a primeira partida contra o América-RN por 2 a 0 e empatar a segunda em 1 a 1.
Não há nenhum grande nome conhecido de modo nacional.
O goleiro Douglas e o atacante Núbio Flávio são os maiores destaques.
“Foi uma temporada com o início ruim, cheguei após o campeonato estadual, mas que enfim termina com o acesso. O clube cometeu alguns erros no início, e por conta disso acabou sendo rebaixado no estadual. Mas teve humildade de buscar um caminho diferente, para que pudesse, depois de muito trabalho e planejamento, conseguir o acesso à Série C”, explicou Leston Júnior.
“Viemos com o intuito de dar a volta por cima e realizar conquistas. Queremos a Fares Lopes que estamos disputando e o título da Série D. O Leston tem total mérito do que fez nesses meses de treinamento, implantou uma forma de jogar e colocamos em prática, buscamos seguir fazendo esse trabalho e evoluir”, disse Flávio Torres, jogador do Floresta.
Agora o caminho leva ao prêmio máximo, a conquista do título da Série D do Campeonato Brasileiro.
E as histórias de José Renato, Felipe, Noelzinha, toda a família Sátiro Santiago, Sérgio Teixeira, Leston Júnior e tantos atletas levam à decisão deste sábado (23), no estádio Jorge Ismael de Biasi, às 18 horas (horário de Brasília), contra o Novorizontino, no interior de São Paulo.
No primeiro jogo, em Fortaleza, houve empate por 1 a 1. Quem vencer, garante a passagem para a final contra Mirassol-SP ou Altos-PI (os paulistas golearam por 4 a 0 no primeiro duelo).
“A expectativa é grande, já passamos parte da decisão em um jogo equilibrado e acredito que não vai ser diferente esse jogo da volta. Temos que estar concentrados para fazer um jogo forte e jogar dentro das nossas características, mas está aberta essa decisão. Tomara que a gente tenha felicidade e competência para nesses 90 minutos para seguir sonhando com o título”, disse Leston.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





