Os 25 anos do gol de barriga de Renato pelo Fluminense e de Marcelinho como herói do Corinthians.
Um quarto de século depois, Esporte Espetacular reencontra heróis e craques que participaram de duas das finais estaduais mais marcantes da história do futebol brasileiro.
Quem esquece o gol de barriga de Renato Gaúcho, mesmo que na súmula o árbitro tenha anotado para o meia Ailton, pelo Fluminense na final do Campeonato Carioca de 1995, contra o Flamengo de Romário, no ano do centenário do maior rival?
E alguém será capaz de esquecer o golaço de Elivelton e a consolidação de Marcelinho Carioca no Corinthians, naquela final de Campeonato Paulista, contra o Palmeiras bicampeão brasileiro e paulista?
Vinte e cinco anos depois, o Esporte Espetacular revisita os heróis, as glórias e os dramas daquelas super decisões que marcaram a história de dois dos principais Estaduais do Brasil.
Sonho de um time mágico: A começar pela conquista do Fluminense, que destruiu o projeto rubro-negro no centenário.
Os rubro-negros imaginavam que teriam um time mágico.
E por um motivo gigante apesar de baixinho.
Melhor jogador do mundo e que acabara de conquistar o tetra pela seleção brasileira, Romário trocava o Barcelona por um time brasileiro.
“Foi uma sensação quase igual à volta da seleção em 94. Um Rio de Janeiro de braços abertos pra mim”.
Romário sozinho era motivo suficiente para o Flamengo se tornar o time do momento.
E a euforia da torcida transbordava até no Carnaval com a homenagem da tradicional escola de samba Estácio de Sá, que cantava e emocionava:
“Cobra coral, papaguaio-vintém, vesti rubro-negro, não tem pra ninguém!”.
Com a volta de Vanderlei Luxemburgo para a Gávea parecia que não teria para ninguém mesmo.
Ele era o técnico do momento, depois do bicampeonato brasileiro com o Palmeiras em 1993 e 1994.
O poderoso Palmeiras: Aquele Palmeiras que marcou época no início da década de 90, estava em transformação quando 1995 começou.
Além da saída de Luxemburgo, o time foi perdendo outros símbolos da equipe.
Daquele elenco, o Palmeiras também perdeu Evair, César Sampaio e Zinho, que foram jogar no Japão.
E Edmundo, que não se acertava com o clube, foi ficando sem clima.
“Fora, Edmundo! Você é o maior traidor do mundo!”, cantou a torcida palmeirense, magoada.
E a diretoria correu para buscar novos jogadores.
O argentino Mancuso foi trazido do Boca Juniors. Muller, campeão do mundo pelo São Paulo e pela seleção brasileira, foi contratado.
Os reforços se juntaram a outros ícones daquela era, como Velloso, Antonio Carlos, Rivaldo, Roberto Carlos, Flávio Conceição, Edilson.
O Palmeiras continuava com um timaço.
“Tinha uma base montada já dos campeonatos de 1993 e 1994, depois chegamos eu e Nilson para compor o elenco do Carlos Alberto Silva, que era o treinador. O time praticamente já tinha uma base, um entrosamento, uma identidade”, lembra Muller.
O Corinthians vinha em movimento contrário.
Sete anos sem conquistar o Paulistão, e freguês do Palmeiras nas últimas duas temporadas, a torcida queria dar o troco no rival depois da derrota na decisão do Brasileirão de 94.
E, se do outro lado a camisa 7 estava indo embora, no Corinthians ela dava luz a esperança de um ano melhor. Com 1,69m, o dono dela começou a se agigantar naquele ano.
Renato Gaúcho é coroado: No Rio, era natural que a história do Campeonato Carioca fosse contada a partir do Flamengo de Romário.
Ou melhor, seria…
Nesse enredo surgiu um personagem vestido de tricolor para tomar o protagonismo e uma certa coroa.
“Foi um duelo à parte porque estava todo mundo dizendo que ia ser o Rei do Rio”, lembra Joel Santana, então técnico do Fluminense.
Hoje, Joel faz sucesso com seu canal de vídeos, mas em 1995 começava a ficar conhecido como o Rei dos Estaduais.
Tinha vencido três em sequência.
E viu em Renato, que também vestia 7, o antídoto para o Baixinho marrento.
“Eu sabia que ele era marrento também. Ele coroava o nosso time, um jogador diferenciado, um jogador que você espera que vai acontecer alguma coisa”.
Reinado corintiano: Em terras paulistas, foram surgindo os primeiros sinais de que o reinado seria corintiano.
Em janeiro, veio a Copa São Paulo de Futebol Júnior, encerrando um jejum corintiano de 25 anos.
Em fevereiro, o primeiro título da Gaviões da Fiel no carnaval paulistano , embalado com um samba enredo que virou um hino:
“Me dê a mão, me abraça/ Viaja comigo pro céu/ Sou gavião, levanto a taça/ Com muito orgulho, pra delírio da Fiel!”
“O samba de 95 foi um samba que atravessou as fronteiras de São Paulo, em todas as direções. E atravessou também o continente, foi para o mundo, foi pra Israel, Estados Unidos, foi para o mundo”, orgulha-se o compositor do samba, o Grego.
Em campo, a cada cobrança de falta, Marcelinho colocava com mais frequência a bola onde queria.
E aos poucos, ele próprio ia se encaixando na história do clube.
“E em abril de 95, quando eu fiz aquele gol que o Velloso não pediu barreira, ali eu vi o choro do corintiano, eu vi a cobrança do corintiano, eu vi a alegria do corintiano, e aquele momento foi o momento mais marcante, que carimbou, que teve a identificação com o torcedor corintiano: “Pô, o cara decide. Em momento difícil, ele consegue superar”.
Em junho, Marcelinho foi mesmo decisivo no título inédito da Copa do Brasil, contra o Grêmio de Felipão, que seria campeão da Libertadores pouco depois.
O camisa 7 deixou sua marca nas decisões paulista e na nacional.
Fla-Flu histórico: Se em São Paulo as atenções se dividiam com a Copa do Brasil, no Rio nada era mais importante do que o Estadual, mesmo com o campeonato tendo uma fórmula confusa.
Não houve uma decisão e sim um octogonal final. Mas por coincidência, ou destino, a última rodada tinha um Fla-Flu.
O quarto da competição.
“Nós tínhamos um jeito de jogar que encaixou no Flamengo e a coisa deu certo”, diz Joel.
Como deu… Um empate por 0 a 0 e duas vitórias, 3 a 1 e 4 a 3, com Renato Gaúcho se destacando, marcando um gol em cada clássico e o Romário passando em branco.
A relação de Joel com o Baixinho, aliás, merece um registro.
Os dois se conheceram em São Januário, quando o atacante estava começando a carreira.
E antes de cada Fla-Flu, Joel ligava o sinal de alerta do zagueiro Lima.
“Eu falava com o Lima: “Não vai conversar com ele que ele vai te derrubar, hein! Não vem com esse negécio de conversinha dentro de campo, conversinha é la fora, depois do jogo, ele vai querer te amolecer e se ele te amolecer, ele vai te bagunçar, pode ter certeza disso”.
Mesmo com essa supremacia tricolor, o Flamengo não enxergava os sinais.
Vivia com o rei na barriga…
Logo “na barriga”.
Exatamente um mês antes do histórico Fla-Flu, o clube e a torcida fizeram festa na cidade para apresentar o mais novo reforço: o atacante Edmundo, que deveria estar em campo em São Paulo.
Dérbi inesquecível: Ainda que sem Edmundo, o Animal, a decisão do Paulistão de novo era pro bicho pegar: Corinthians-SP X Palmeiras-SP.
Era a quarta final entre os dois times num intervalo de dois anos.
E o Palmeiras tinha levado as outras três.
“A gente sabia que do outro lado tinha essa pressão porque eles tinham perdido em 1993 e 1994. E, se perdesse mais essa seguida, seria ruim para a situação do clube e dos jogadores”, lembra o ex-centroavante palmeirense Nilson.
Com o Morumbi e o Pacaembu interditados, as finais foram para Ribeirão Preto.
E o primeiro jogo, um empate por 1 a 1 com gols de Marcelinho e Nilson no fim da partida, terminou com confusão entre os jogadores do Corinthians e a polícia.
Viola, revoltado, tentava achar o agressor do companheiro Zé Elias.
“O cara tirou o revólver e falou que ia dar tiro, ia dar tiro, é pra sair, é pra sair. Quando eu olhei, um já me deu uma porrada com um cassetete aqui atrás. Eu olhei pro cara, ele pegou o meu braço e deu umas cinco, seis cacetadas no meu braço – reclamava o agredido Zé Elias, na delegacia”.
“A gente estava passando por um momento de muita tensão na semana toda, né? Com confusão total… A gente ia treinar e o torcedor manifestando que, se a gente não ganhasse o jogo, o bicho ia pegar pro nosso lado”, lembra hoje, o ex-atacante Elivelton.
Uma semana depois, no jogo de volta, o Palmeiras saiu na frente, com jogada de Rivaldo e Nilson.
“Quando eu fiz o gol no início do segundo tempo, eu falei: “Agora acabou, né!?”. Eu achava que o título havia chegado. Eu poderia ter entrado para a história, ainda mais fazendo gol nos dois jogos, seria lembrado pra sempre. E hoje no Palmeiras, eu não sou lembrado, cara”, lamenta Nilson.
Não, não seria o camisa 39 do Palmeiras o herói daquela partida.
Mais de 120 mil pessoas no Maracanã: No Maracanã, possíveis heróis também se apresentavam e para um público de mais de 120 mil pessoas.
O Fluminense fez um primeiro tempo perfeito.
Renato Gaúcho, claro, deixou sua marca.
Outro atacante, Leonardo, fez o segundo: 2 a 0.
Mas era um Fla-Flu. E Romário, até então apagado, surgiu como um raio na área tricolor para diminuir aos 26 minutos do segundo tempo.
O Flamengo precisava de um empate para ser campeão.
E tinha tempo para isso.
Apenas seis minutos depois, o volante Fabinho, prata da casa, com um corte, tirou três marcadores.
E marcou um golaço: 2 a 2.
“O que eu acho a respeito do meu gol? Se tivesse sido campeão, seria lembrado como o Renato, hoje, diz Fabinho
Quebra-quebra e gritaria ao amanhecer: Em Ribeirão Preto, o gol de Nilson ia dando o título para o Palmeiras.
O Corinthians tinha 30 minutos para fazer pelo menos um gol e evitar mais uma festa do rival.
Só que dessa vez, antes mesmo de a bola rolar, eles tinham começado o dia de uma forma diferente.
“A galera acordava às 10 horas (horário de Brasília), 10h30 (horário de Brasília) para tomar café. O Bernardo acordou mais ou menos umas 8h30 (horário de Brasília) com o cavaquinho dele na mão e começou a bater nas portas e falando: “Acordei campeão, acordei campeão, vamo embora, bora!”, lembra Marcelinho.
“O Marcelinho foi gente boa falar que eu saí batendo nas portas… Acho que nós quebramos uma cinco portas do hotel. Aí contagiou, foi saindo todo mundo no corredor, nego quebrou porta, e nós começamos a cantar e a dançar, e acabou que aquilo deu certo”, conta Bernardo.
“E começamos a declarar um para o outro: “Acabou humilhação, acabou a gozação, hoje a gente atropela os caras“.
É impossível dizer o quanto isso mexeu com o time para valer.
Mas o fato é que três minutos depois de levar o primeiro gol, o Corinthians teve uma falta na entrada da área, no lugar perfeito pra Marcelinho Carioca: 1 a 1.
O empate levou o jogo para a prorrogação.
Taquicardia no Rio: No Rio, tudo acabaria nos 90 minutos.
O empate dava o título para o Flamengo. O Maracanã parecia eletrificado.
“Eu olhei assim para o alto, para a arquibancada, vi a torcida do Fluminense, boa parte já largando, saindo do Maracanã”, diz Ailton.
O meia, criado na Gávea, guardava uma mágoa no peito.
Nos seus tempos de camisa 8 do Flamengo, segundo ele, um radialista o criticava muito: Kleber Leite, que em 1995, ironicamente, era o presidente rubro-negro.
O Fla-Flu também havia se tornado pessoal para ele.
E a vingança veio aos 42 minutos do segundo tempo.
“Eu falei para o Ronald (lateral-direito): “Só tem um jeito de a gente ganhar esse jogo, vou ficar aberto, quando você pegar a bola, toca em mim que vou sair driblando”.
E Aílton recebeu a bola e saiu driblando…
“Chutei e a bola bate na barriga do Renato e entra”.
“Quer saber, quando eu vi, eu estava dentro de campo, eu já não sabia onde eu tava mais”, diz Joel.
“Se essa bola não me encontra no meio do caminho, ia cair lá no fosso”, brincou Renato.
Entre o chute de Aílton e a barriga de Renato, tem uma súmula.
Tem um árbitro.
Leo Feldman escreveu que o gol foi de Aílton.
“Uma vez eu cruzei com o árbitro do jogo e falei com ele, você não tem TV em casa e não vê que o gol foi meu?”, conta Renato
Bem, 25 anos depois, o juiz pode falar para Renato que…
“Eu não tenho dúvida, durante esses 25 anos, de que eu manteria o gol do Aílton”, rebate Feldman.
“De quem foi o gol? O gol foi do Aílton”, ri o próprio autor do gol histórico.
“A bola foi ao encontro da barriga do Renato. Bateu na barriga do Renato e entrou no gol. Não foi o Renato que colocou a barriga na frente e a bola entrasse”, confirma o árbitro.
“O gol foi meu, não resta dúvida”.
“Aílton, dá graças a Deus que aquela bola me encontrou no caminho, volto a repetir: a bola estaria lá no fosso, não teríamos ganhado o campeonato e não estaríamos na história do clube”, diz Renato.
O Fluminense quebrou um jejum de dez anos sem títulos e o Rio de Janeiro conheceu sua majestade, Renato Portaluppi Primeiro
Romário reconhece que a derrota machuca até hoje.
“Uma derrota daquela realmente foi uma coisa bem inesperada, então eu posso dizer que foi uma das piores que tive na minha vida”.
“Nesse dia, infelizmente para o Baixinho, estávamos em lados opostos e nesse jogo saí vitorioso”.
Vinte e cinco anos depois…
Esse Fla-Flu do gol de barriga parece que nunca vai terminar.
O fator Elivelton: Ah, em São Paulo teve fim, sim.
E muito bem definido.
Até porque, não apenas o título daquele ano, estava em jogo também a hegemonia no estado.
Palmeiras e Corinthians tinham 20 troféus do Paulista cada.
Pelo regulamento, o empate na prorrogação era do Corinthians.
Mas o desfecho daquela decisão não viria do apito do árbitro.
“A bola sobra para o Tupãzinho e ele rola com mel, com açúcar, com a mão e com tudo pra mim, cara. E eu só tive a felicidade de pegar bem na bola e a bola acertar o ângulo do Velloso, foi assim um gol sensacional. Um gol que foi uma explosão de muita alegria, de dever comprido, aquela tensão nossa saiu tudo naquele gol”, lembra Elivelton.
O Corinthians encerrava ali a freguesia contra o Palmeiras.
“Esse grupo era muito unido, talvez o grupo mais unido com quem eu trabalhei porque era um grupo que estava disposto a tudo, a bater, a apanhar, a brigar, bebia junto, era um grupo bastante unido e acho que isso fez aquele Corinthians ganhar a Copa do Brasil e o Paulista”, diz Bernardo.
“A final de Ribeirão Preto cravou como ídolo do torcedor corintiano o jogador que crava numa final, o jogador que cresce numa final. Então foi importante para todos os atletas. E aí em cima do teu maior rival, irmão. Não tem preço isso. Ser campeão em cima do teu maior rival é um prêmio, é um troféu”, afirma Marcelinho.
Desde esse dia, o clube nunca mais perdeu a liderança nessa disputa por conquistas estaduais.
Um quarto de século de um ano musical para os ouvidos corintianos.
*Com reportagens de Eric Faria, Felipe Brisolla, Igor Lopes, Maurício Oliveira, Thiago Gouveia e Thiago Macedo.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





