Esquema de Jogo

Colunas, entrevistas, análises e tudo sobre o esporte!

NEY FRANCO. TREINADOR. CRUZEIRO-MG. SELEÇÃO BRASILEIRA SUB-20. SPORT-PE. VITÓRIA-BA. BOTAFOGO-RJ. FLAMENGO-RJ. IPATINGA-MG. GOIÁS-GO.
Análise

Geração de Ouro

Dez anos após último Sul-Americano sub-20 do Brasil, Ney Franco lembra início de Neymar e repassa trajetória.

Campeão com geração de atual craque do Paris Saint-Germain, treinador está parado desde saída do Cruzeiro e faz reflexão sobre o mercado: “Clube para contratar treinador bota 10, cinco nomes na rede social para ver qual vai pegar”.

De São Paulo, onde passou a morar desde a passagem pelo Tricolor Paulista em 2012, Ney Franco atendeu o globo esporte para lembrar da conquista do Sul-Americano há 10 anos.

Foi no sub-20, em 2011, realizado no Peru que despontou aquele time que tinha Neymar, Casemiro, Lucas, Oscar, Danilo, Alex Sandro…

E mais alguns outros bons jogadores que não cabem num parágrafo.

Eles formaram a base das seleções de Dunga, de Felipão e de Tite de lá para cá.

A conquista, com goleada de 6 a 0 no Uruguai no dia 12 de fevereiro, foi a última do Brasil na categoria.

De lá para cá, o Brasil só conseguiu a classificação para o Mundial apenas uma vez em quatro oportunidades.

Aos 54 anos, o mineiro de Vargem Alegre está parado desde que foi demitido do Cruzeiro em outubro do ano passado.

Além da conquista de 2011, que seria seguida pelo Mundial da categoria, também a última conquista do Brasil na do torneio FIFA sub-20, Ney lembrou a passagem pelo São Paulo, revelou torcida especial por Fernando Diniz e deu suas impressões sobre a relação dirigentes-treinadores no futebol atual.

“Um clube hoje para contratar treinador bota 10, cinco nomes na rede social para ver qual vai pegar”, afirmou Ney Franco.

Confira a entrevista com o treinador de futebol:

Há 10 anos a seleção brasileira masculina sub-20 conquistava seu último título sul-americano.

O que representa para você aquele período na CBF?

“É uma data especial para mim. Um marco na minha história, não só pelo título no Sul-Americano, mas também pelo Mundial, que vai fazer 10 anos em julho. Desde o convite até o momento que coroamos aquele trabalho em 2011 com muita competência. Estava no Coritiba, liderando a série B do Brasileiro. Em setembro, recebi convite da CBF, do presidente Ricardo Teixeira, que tinha contratado o Mano Menezes”.

“A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) queria treinador mais experiente para a seleção sub-20 e eles chegaram no meu nome. Queriam desligamento do Coritiba, mas avisei que não podia deixar o clube naquele momento. Estava há um ano lá, vínhamos do título estadual e estava liderando a série B. A minha responsabilidade com o Coritiba era enorme, embora a responsabilidade de dirigir a seleção também fosse enorme”.

“Logo depois, eles voltaram e falaram que dava para esperar o término da Série B, que terminou ali na primeira semana de dezembro e fiquei, de setembro até dezembro, no Coritiba e montei comissão técnica. Começamos a ficar de olho no mercado para convocação. Subimos com o Coritiba, com o título de 2010 e no final de novembro fizemos a convocação da sub-20. Ficamos dezembro e janeiro todo na Granja Comary treinando”.

Aquela geração tem particularidade que não é tão comum em competições de base: muitos viraram destaque.

Era possível já vislumbrar tanto futuro ali?

“Tinha realmente o Neymar, que já estava no profissional do Santos, e que, inclusive, além de ter sido campeão com a gente, foi campeão da Libertadores. Ele e o Danilo, né. Neymar depois já não vai para o Mundial, porque o Mano convocou ele e o Lucas para disputar a Copa América. Mas eu não tinha noção de que tantos jogadores vingariam. Teve o Gabriel, nosso goleiro, que depois foi para o Milan. O Juan, para a Inter de Milan, o Alan Patrick, Fernando, Felipe Anderson. Depois, no Mundial, foi tivemos Alan, Dudu, Willian José, Philippe Coutinho…”

Naquele momento já era difícil convocar Neymar?

Hoje, a gente vê o quanto o Jardine e outros antecessores sofrem para chamar os melhores.

“A gente teve que fazer trabalho legal. O pai do Neymar ajudou muito nesse processo. Liguei diretamente para ele. Só foi feito um pedido, porque o Neymar vinha numa sequência de jogos pelo Santos e terminava o Brasileiro a gente já se apresentou para treinamento. Eles fizeram pedido, e foi pedido do pai do Neymar, porque liguei para ele para ajudar nesse processo e ele foi muito parceiro nisso – de só uma semana para ele dar descansada. Porque ele tinha sequência enorme de jogos em 2010 e eu achei justo aquilo ali. Neymar tinha acabado de passar por aquele episódio com Dorival e, para minha surpresa, no dia a dia foi jogador que não foi capitão da equipe, mas foi um dos líderes. Principalmente em termos de posicionamento técnico, de postura nos treinamentos. E ele desequilibrou, passeou no Sul-Americano”.

Ele e Lucas eram quase covardia ali na categoria…

“O Lucas na final contra o Uruguai arrebentou, mas o Neymar a competição toda era muito diferente, já na época. Lembro o primeiro jogo, de 4 a 0 contra o Paraguai, que ele fez os quatro gols. O último é uma pintura, que ele chega na cara do gol e toca por cima do goleiro. Para mim é um dos gols mais bonitos da carreira do Neymar. E acho que aquele Sul-Americano foi muito bom para ele também”.

No sentido de que ao menos, se era natural pular muitas etapas, essa etapa, de campeonato de seleções sub-20, ele cumpriu?

“Sim, a gente criou ambiente muito bacana, o Neymar estava muito leve. Na época, o Lucas, o Oscar, que tinha problema com o São Paulo e foi para o Internacional. O Danilo, que voltou para o Santos, o Casemiro, no São Paulo, também… Foi uma competição que acabou valorizando todo mundo, com visibilidade enorme, me surpreendi com a repercussão daquele Sul-Americano. Muitos atletas desse grupo vingaram”.

Sentia, naquele momento, que essa competição se tornaria uma pedra no sapato dos próximos treinadores?

Porque é evidente a evolução dos nossos vizinhos na base.

“Sem dúvida, é uma competição muito difícil. A gente foi feliz na convocação, porque poderíamos ter errado ali, e o tempo que tivemos de preparação, com um mês, foi muito bom para preparar a seleção fisicamente, técnica e taticamente. Montamos a equipe num 4-2-3-1, com atacante de referência, um meia centralizado, que começamos com Oscar, o Neymar na esquerda e o Lucas na direita. Ali atrás o Casemiro e o Fernando, que era do Grêmio. Danilo de um lado, Fernando do outro. Então foi uma seleção que se encaixou desde os primeiros trabalhos táticos”.

“Todas equipes da América do Sul evoluíram muitos, jogadores fortes, bem selecionados, alguns jogadores sub-20 jogando fora do país. Notadamente os equatorianos e colombianos. A seleção argentina era muito forte, só tivemos uma derrota e foi para eles. Mas a preparação e a qualidade técnica desses atletas foi determinante para que fizéssemos competição muito segura”.

Como era o projeto, o que Ricardo Teixeira pediu quando te contratou?

“Fui contratado para ser o treinador do sub-20 e coordenador geral das categorias de base. A CBF na época não tinha treinador de outras categorias. Eu contratei treinador para o sub-17, Emerson Ávila, que era treinador da sub-20 no Cruzeiro, e para o sub-15, o Marquinhos Santos, que era do sub-20 do Coritiba. Foram contratados exclusivamente para ficar na Seleção.

“Foi bacana também porque a seleção sub-17 e sub-15 também foram campeões sul-americanos. Ganhamos as três competições. Fiquei realizado. Fiquei apenas um ano e meio nesse trabalho, mas foi primeiro passo para a base começar a ter estrutura. Lembro que contratamos fisiologista, que não tinha nem na seleção principal. Até a principal usou o fisiologista que levamos para a base. Isso foi em 2011, o início de tudo. Em 2012 disputamos alguns torneios com geração diferente. Tinha o Rodrigo Caio, tinha o Fabinho, que era da base do Fluminense, nem era conhecido no profissional, mas conhecemos na Copa São Paulo. Foi convocado para torneio na Espanha e na África do Sul. Lá, o Fluminense negociou os jogadores”.

A saída para o São Paulo já foi com o José Maria Marín na presidência.

Como foi essa decisão?

“O diretor de futebol do São Paulo na época, Adalberto Batista, me procurou com a proposta e o presidente do São Paulo procurou o Marin. Ele, em reunião comigo, praticamente me liberou. Disse que eu não poderia deixar de ir para o São Paulo, que seria bom para mim. Naquela hora eu concordei. Realmente receber convite do São Paulo é algo grandioso”.

O que significa na carreira de um treinador 10 anos?

Muitos aprendizados, muitos arrependimentos?

“Dez anos se fosse só essa conquista e tivesse parado de trabalhar, já diria que teria valido a pena. Mas de lá para cá continuei em outros projetos. Tive o São Paulo, fizemos temporada de 2013 no Vitória de quinto colocado na Série A, a melhor colocação de clube nordestino no Brasileiro, em 2014 voltei no Flamengo, já não deu tanto certo essa segunda passagem pelo Flamengo. Depois, em 2016 optei por dar uma parada com a família. Fui para os Estados Unidos e por opção fiquei um ano parado. Voltei em 2017 para o Sport, fiquei apenas quatro meses. Em 2018, voltei para o Goiás na Série B, peguei em décimo nono colocado virando o turno, conseguimos subir o Goiás. Saí… Em 2019 peguei de novo o Goiás em situação ruim de zona de rebaixamento e terminamos o campeonato em 10º lugar. Ano passado (2020) que foi muito atípico, não fomos bem no Goiás em termos de resultado, mas com vários problemas de pandemia. O primeiro jogo foi aquele de 13 jogadores com Covid. E tive essa passagem pelo Cruzeiro também”.

“De 2011 para cá somei alguns resultados positivos, outros que não foram bons e se você for avaliar é como é a carreira de qualquer treinador no Brasil. Dez anos nessa profissão, que é atípica, significa muito e a gente vai entendendo ainda mais que o tempo todo o que define o nosso momento como treinador são os resultados. Já fiz parte da geração dos novos treinadores. Hoje já sou considerado um treinador experiente. Não sou colocado no hall dos ultrapassados, então estou naquele meio-termo, mas como qualquer treinador, dependendo de resultados dentro de campo”.

“Nesses 10 anos, em alguns momentos os mais experientes eram os caras que tinham mercado aberto, depois de uma hora para outra, principalmente depois da Copa de 2014, o Brasil precisava fazer uma revolução. Tinha que trabalhar com jovens treinadores, aí ficamos dois anos nessa história, depois voltou de novo os medalhões. Agora tem a questão de que os treinadores brasileiros precisam se reciclar, tem os treinadores estrangeiros. Então você fica no meio desse ciclo, no centro disso tudo, e você tem que se reinventar e na próxima oportunidade de trabalho pegar e torcer para ter o resultado para que entre nessa linha ali, que em alguns momentos chamam de prateleira de baixo, do meio de cima. Já tive grandes momentos de futebol, em que qualquer mudança em clubes grandes brasileiros o meu nome era citado. Antes dessa conquista da Seleção, tive a Copa do Brasil com o Flamengo, o Estadual do Rio, em Minas o Estadual com o Ipatinga em cima do Cruzeiro, a Série B com o Coritiba, depois a Sul-Americana vencida com o São Paulo, mas o Sul-Americano garante no seu currículo uma coisa que ninguém te tira. Desenvolver seu trabalho com jovens ou veteranos. Você sabe que tem essa capacidade para ser profissional de qualquer área”.

Você falou da Sul-Americana com o São Paulo, até hoje o último título do clube.

Consegue imaginar o que o Fernando Diniz passou até ser demitido?

Você viu de perto essa pressão são-paulina.

“Esse trabalho meu no São Paulo foi momento que amadureci muito, aprendi muito. Embora tenha passado pelo Flamengo, que tem acompanhamento absurdo da mídia, mas o São Paulo já vinha numa seca de títulos. Tinha sido tricampeão, mas depois sem ganhar e sem disputar a Libertadores, que é uma paixão da torcida. Fiquei um ano no São Paulo, com sete primeiros meses muito bons. Peguei em 2012 no meio do ano com o São Paulo muito mal. Estava em décimo segundo lugar colocado. Conseguimos remontar a equipe, com jogadores que não vinham sendo utilizados, entre eles o Osvaldo, Jadson, próprio Lucas cresceu muito com a minha chegada e além do título de 2012 tivemos a melhor campanha do returno. Conseguimos a vaga pela Taça Libertadores da América, fomos o quarto colocado do Brasileiro e a gente comemorou muito pela situação que pegamos o clube. A final da Sul-Americana foi depois do Brasileiro, dia 12 de dezembro, então conseguimos o título e então conseguimos a classificação para a Taça Libertadores da América em duas vias. Então foi muito bacana, fui eleito melhor treinador da competição, mas o trabalho ele era muito difícil por causa dessa cobrança”.

“E aí eu vou para o Diniz. Se tem um time esse ano que eu torci para dar certo foi o São Paulo por causa dos vários momentos que o clube segurou o Diniz, que acho que assim que tem que ser essa relação no futebol brasileiro. Alguns trabalhos morrem e não dão certo pela cobrança imediata pelos resultados”.

Se tem um time esse ano que eu torci para dar certo foi o São Paulo por causa dos vários momentos que o clube segurou o Diniz, porque acho que assim que tem que ser essa relação no futebol brasileiro

Como é essa cobrança?

Vem da imprensa, da torcida, mas também tem diretor, conselheiro?

“Vem de todos os lados. Você está no seu trabalho e você é o tempo todo avaliado com o resultado do jogo. Esquece o seu trabalho com qualidade, as metodologias, se sua equipe de trabalho é boa no dia a dia, se você consegue preparar sua equipe bem taticamente… se você vai para o jogo e não vence, tudo isso é relegado a segundo plano em função do que é visto no jogo. Geralmente quem só está vendo o jogo não frequenta o dia a dia do clube. O São Paulo é clube que tem apelo midiático enorme, tudo é levado ao extremo, ou é muito bom ou é muito ruim. Não tem meio termo. Qualquer profissional que trabalha num clube desse tem que ter controle emocional muito alto. Tem que saber se posicionar com o que sai na imprensa, saber cobrar de seus atletas dentro de um limite, uma cobrança justa, que você não seja afetado pela cobrança externa, internamente também que o modo como é gerido o clube brasileiro, que é político, o presidente tem que dar satisfação para seus pares, para as pessoas que colocaram esse presidente lá na cadeira. E hoje a cobrança é maior ainda, em 2012 acho que nem tinha ou estava começando Whatsapp, essas coisas. A maioria dos clubes hoje não está preparada para aguentar essa pressão, esse contato direto do torcedor nas cobranças do dia a dia”.

Muita gente no futebol entende que os clubes são dirigidos de fora para dentro, justamente por essa questão de torcida.

Você entende assim?

“Vejo assim. Um clube hoje para contratar treinador ele bota 10, cinco nomes na rede social para ver qual vai pegar. Se você não tiver na frente diretores de futebol, gente com capacidade para segurar nesses momentos de crise… por isso torci pelo São Paulo, porque o Raí nos momentos mais difíceis segurou a onda. O próprio Diniz não quis entregar o cargo. Eu, como treinador, senti que o clube tinha que trabalhar dessa forma, suportar esses momentos de queda de produção do clube e saber que pode recuperar. Quando vem a vitória, outros clubes copiam esse modelo também. Por isso que torci, você ia olhar e ver: nos momentos de crise a diretoria segurou o treinador e o cara conseguiu mudar. Mas infelizmente não deu certo. Entendo hoje, por ter passado por lá, que a cobrança é enorme, se o treinador não tiver tranquilidade com sua comissão técnica, não souber se posicionar, esse trabalho é jogado fora”.

O Domenec Torrent disse que pouco conversou com os dirigentes do Flamengo, sentiu que não o conheciam.

Essa prática, de realizar entrevistas com treinador, existe?

Os dirigentes sabem por que estão te contratando ou por que estão demitindo?

“Logicamente que não posso generalizar, porque há clubes que têm norte, sabem o que quer, mas têm clubes que são movidos a opiniões externas, principalmente pela mídia. Hoje você vê que qualquer clube brasileiro que vai trocar de treinador, a primeira fala é que quer treinador estrangeiro. Nem tem no mercado, mas vão ter que inventar, procurar opção. Mas isso muda, daqui a dois, três anos pode ser medalhão, o jovem. E acho que muitas vezes o currículo que se olha é o do momento. Últimos seis meses. Então os treinadores que vão estar em alta em 2021 são os que terminaram bem uma Série B, os que estão bem dentro da Série A e talvez aqueles que fizeram trabalhos consistentes há mais tempo não são nem lembrados”.

Como foi que surgiu o convite do Cruzeiro?

Você ficou apenas um mês.

Houve essa conversa sobre proposta, modelo de jogo, metodologia?

“Nunca tive nenhuma contratação minha em que sentei na mesa com diretor e discuti essas coisas. Se existe isso, pelo menos aqui no Brasil, são poucos clubes. Aqui os clubes grandes contratam porque já conhecem o profissional, conhecem o histórico, por causa do nome. Em alguns momentos podem até fazer aposta, mas em nomes conhecidos. Você citou o Dome, que foi uma aposta muito mais em cima do nome do Guardiola. Não estou falando se ele é bom ou mau profissional. Ele merecia estar no Flamengo pela experiência que tem no futebol, mas ele foi só mais um que por não haver certeza da contratação, no primeiro momento de instabilidade ele foi dispensado”.

“Em relação ao Cruzeiro, tive o convite porque logo depois que saí do Goiás, o Enderson foi dispensado e eu recebi ligação do presidente do Cruzeiro. Tinha disputado Série B pelo Coritiba e Goiás. Uma vez fui campeão, outra vez depois de três anos do Goiás sem conseguir subir, conseguimos. Talvez tenha sido assim que chegou ao meu nome ou meu histórico no Cruzeiro, pois trabalhei 10 anos na base. Mas não sentei com ninguém para conversar”.

Ali já dava para sentir que as dificuldades seriam muito grandes?

“O Cruzeiro vai precisar de trabalho especial, principalmente na parte econômica, porque hoje praticamente fica na dependência de um empresário para resolver os problemas, alguém que que não tem cargo diretivo para pagar funcionários e resolver as pendências do clube. E o clube fica amarrado por causa disso”.

“O clube não está tendo alternativas econômicas, por mais que presidente seja bem-intencionado. O clube realmente está falido. A gente fez uma viagem lá que a gente teve que fazer, um dia antes do jogo, uma viagem de 4h de Recife para Maceió, para jogar no dia seguinte. Mas alguém chegou lá, estourou o cofre, fez loucuras e acho que esse ano também só caiu na realidade da dificuldade da Série B agora no fim. Peguei momento que a equipe não podia contratar atletas. Então o elenco é formado por veteranos, que tinham experiência da queda, e alguns jovens da base. Esses dois grupos em alguns momentos não estavam harmonizados, então é mais do que trabalho técnico, tem também trabalho psicológico”.

Como foi a sua demissão?

“Foi depois do jogo contra o Oeste, estava o presidente e o Deivid, conversaram comigo dentro do vestiário mesmo. A pressão estava muito grande, pressão de gente que bota dinheiro do clube, pois já existia, quando cheguei, corrente que queria o Felipão, então cheguei em ambiente que não estava muito favorável para mim. Já existia essa solicitação do nome dele. A fala dele para mim foi essa, que as pessoas que ajudam o clube no dia a dia queriam trocar e eu aceitei. Pela experiência que eu tinha na Série B eu via que não tinha possibilidade nenhuma de acesso. Que o trabalho deveria evitar a queda para a C. E foi uma conversa que eu tive dentro do vestiário contra o Oeste. O Felipão já chegou até com esse discurso, porque você tira um pouco da responsabilidade enorme, porque os gigantes que caem sempre sobem logo. Mas o caso do Cruzeiro hoje não é questão técnica, o clube vive um caos enorme”.

Como é o momento de pausa para o treinador?

Revê jogos e faz balanço do que fez de bom e ruim?

“Eu fiquei parado em dois momentos, um por opção, que o pessoal chama de ano sabático, fui com meus filhos para os Estados Unidos para estudo de inglês deles e da minha mulher. E desde o início da minha carreira em 2005, que foi com muito sucesso no Ipatinga, depois no Flamengo. No Botafogo, ganhei Taça Guanabara, na seleção e no São Paulo com título. E depois, em 2013, tive temporada muito boa no Vitória. Em 2014, temporada que não foi boa, estava no Vitória, saí, fui para o Flamengo, não deu certo, voltei para o Vitória e o Vitória teve uma queda. Ali senti que deveria dar parada para repensar a carreira, estudar um pouco”.

“Até 2014 saía de um clube e encaixava no outro. Então optei em 2016 dar uma parada. Em 2017, quis voltar a trabalhar e retomar no mercado. Primeira volta foi meio frustrada, fiquei quatro meses no Sport, disputando competição de mata-mata. Coloquei o Sport na final do campeonato estadual, passamos na Copa do Brasil em duas fases, na Sul-Americana em três fases e chegamos na final da Copa do Nordeste, mas perdemos para o Bahia. O Sport, em cima do resultado, resolveu trocar o treinador. E a minha família continuou nos Estados Unidos. Eu preferi ir para lá e fechar o ano lá”.

“Em 2018 foi ano muito bom, peguei Goiás na Série B e fiz o acesso. Agora, saindo do Cruzeiro na situação que foi, tive duas sondagens de Série A. Preferi não pegar, porque aí você já começa… Tive Goiás, Cruzeiro e esse ano está muito atípico. Muito atropelado. Vai terminar o Brasileiro, já entra no estadual com clubes com temporada já muito desgastante. Por opção quero voltar no Brasileiro, escolher bem a equipe, não quero nem pegar estadual, porque acho que vai ser ano muito difícil. Estou preparado familiarmente, pessoalmente, para retornar no Brasileiro. Pode ser numa Série A, Série B, dependendo do clube. Estou num momento da carreira que dá para fazer essas escolhas, se dar a esse luxo, dar uma parada também e torcer para o próximo trabalho consiga começar bem, fazer bom trabalho até para tirar a impressão aí do último trabalho do Cruzeiro”.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confirme que você não é um robô. *