Conjunto do Brasil vai de azarão a candidato a pódio inédito no Mundial: “Era quase uma utopia”.
Sob o comando da técnica Camila Ferezin, equipe busca medalha em competição no Rio de Janeiro.
Mudanças estruturais e valorização da parte artística contribuem para crescimento.
O Brasil pela primeira vez vai sediar um Mundial de ginástica rítmica.
A partir desta quarta-feira (20), a Arena Carioca 1, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, vai reunir as principais estrelas da modalidade na briga por medalhas.
As brasileiras estão entre as candidatas ao pódio com o conjunto comandado pela técnica Camila Ferezin.
O quinteto verde-amarelo era um azarão na época em que a treinadora era ginasta, lá nas Olimpíadas de Sydney 2000.
Hoje ela vê o sonho de uma medalha inédita virar uma meta palpável.
“São muitos anos de dedicação. Estou há 14 anos na frente da seleção brasileira de conjunto. Na minha época, quando a gente imaginava estar entre os melhores era quase uma utopia. A gente conseguiu 15 medalhas em Copas do Mundo nesses últimos anos. É uma honra estar entre os melhores do mundo na ginástica rítmica, uma modalidade que é tão predominantemente do Leste Europeu. E o Brasil tá ali, sendo cotado por essa medalha”, disse Camila.
O Mundial de ginástica rítmica terá transmissão do sportv2, globoplay e a participação brasileira será acompanhada em tempo real pelo Globo Esporte.
De 6 medalhas possíveis nas grandes competições internacionais que disputou em 2025, o conjunto brasileiro conquistou 4 ouros e 1 bronze.
Nas últimas 2 edições do Mundial, em Sófia 2022 e Valência 2023, o time ficou em quarto na prova dos 5 arcos, agora substituída pelas cinco fitas.
Todo esse retrospecto anima Duda Arakaki, capitã da seleção e uma das mais experientes da equipe.
“É muito especial (competir em casa), e acho que a escolha do Rio para sediar o Mundial também veio dos nossos resultados. Fizemos um trabalho muito bom e com os pés no chão sempre. Sabemos que vai ter torcida, e todo mundo espera bastante de nós, mas trabalhamos muito para entregar dentro de quadra. Rezo para levarmos ao campeonato aquilo que treinamos”, diz a ginasta de 22 anos, que já participou de duas Olimpíadas: Tóquio 2020 e Paris 2024.
Na capital francesa, inclusive, o conjunto do Brasil precisou exercer a resiliência.
Também cotado para o pódio, o time sofreu com a lesão de Victória Borges e não conseguiu avançar à final olímpica.
Apesar da frustração, o trabalho seguiu, já de olho no Mundial, e 3 ginastas que competiram em Paris estarão em ação no sábado (16) e no domingo (17), no Rio de Janeiro: Duda, Nicole Pírcio e Sofia Madeira.
Elas ganharão a companhia de Maria Paula Caminha e Mariana Gonçalves, Julia Kurunczi é a reserva.
“Se não tivesse o Campeonato Mundial (no Brasil), talvez algumas ginastas nem seguissem na carreira, e o time passasse por renovação. Mas a história foi diferente. Nós nos juntamos, demos as mãos e falamos: “Não vamos desistir do objetivo. Enquanto não conquistarmos a medalha, não vamos parar de trabalhar”. A competição no Rio funcionou como um incentivo, e as meninas foram bastante resilientes”, explica Camila Ferezin, técnica da seleção brasileira de conjunto desde 2011.
Camila divide os créditos com o restante dos profissionais que ajudam a seleção no centro de treinamento da ginástica rítmica, em Aracaju.
De 15 a 20 pessoas se dedicam integralmente ao conjunto, entre psicólogos, médicos e massagistas.
Uma realidade bem diferente da que Camila viveu como atleta, quando era acompanhada apenas por uma treinadora e uma professora de balé.
“Tudo é uma construção, um processo. Na minha época, nós estávamos engatinhando. Hoje, temos um investimento da Confederação Brasileira de Ginástica, uma excelente estrutura em Aracaju, onde a seleção se concentra. Estou há quase 15 anos à frente da equipe, e formamos um time de pessoas muito competentes e especializadas na ginástica rítmica. Com a ginástica artística sendo nosso espelho, também crescemos e aprendemos. Ao longo dos anos, fomos subindo degrau por degrau e agora estamos em um ciclo muito bom”, aponta Camila.
Multimedalhista em grandes competições, a ginástica artística realmente é referência para a rítmica.
Tanto que um período de intercâmbio entre as 2 modalidades, durante a pandemia de Covid-19, foi determinante para o sucesso de Camila e de suas comandadas.
“Por causa do isolamento social, nos reunimos em Sangalhos (Portugal), junto com a ginástica artística. A Rebeca Andrade estava tão próxima de nós. Foi uma virada de chave ficar dois meses trancados, trabalhando lado a lado. Vimos de perto tudo que eles faziam, e tivemos essa troca de experiências. A partir dali, conseguimos evoluir”, conta a treinadora do conjunto.
Ajudinha da parte artística: Além de mudanças estruturais, uma nova forma de julgar o desempenho das atletas colaborou para o sucesso do conjunto brasileiro.
Nos últimos anos, a parte artística passou a ser mais valorizada, com uma banca de juízes destinada a avaliar itens como coreografia, expressões faciais, conexão e sincronia com as músicas das apresentações, por exemplo.
Antes, esse viés artístico, tradicional ponto de destaque das atletas do Brasil, era julgado dentro da nota de execução, correspondendo só a uma pequena parte da nota final.
“A mudança no código nos favoreceu, porque o Brasil é referência na parte artística, em irreverência, em criatividade. Nosso conjunto sempre mostrou isso, e agora essa questão está valorizada”, celebra Camila.
Prova do investimento das brasileiras na parte artística é a escolha da famosa música “Evidências” para ser trilha sonora da série mista, com 3 bolas e 2 arcos.
Representantes brasileiras no individual: Enquanto o conjunto do Brasil entrará em ação no sábado (23) e no domingo (24), 2 ginastas representarão o país nas disputas individuais do Mundial, já a partir desta quarta-feira (20).
Bárbara Domingos e Geovanna Santos foram inscritas como titulares, enquanto Maria Eduarda Alexandre será a reserva no Rio de Janeiro.
A medalha no Mundial é um sonho mais distante do que para o conjunto.
De qualquer forma, as brasileiras têm conquistado bons resultados nos últimos anos.
Em 2024, Babi alcançou um feito inédito para o país, ao se classificar para a final do individual geral das Olimpíadas de Paris.
“Tenho encarado as coisas com muita leveza, alegria. Este momento, para mim, está sendo incrível. É o Campeonato Mundial. Sabemos o quanto sonhávamos com essa competição aqui no Brasil. Tenho certeza de que será lindo e conseguiremos a melhor posição possível”, projeta Babi.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





