Finalmente este pacato site esportivo traz algo de qualidade a quem o lê. Depois de muitas bobagens ditas por noias, vidas feitas, estivadores e cabeçudos, finalmente um conteúdo de nível: uma entrevista exclusiva com Sávio, o ‘Anjo loiro da Gávea’, que sempre foi chamado de ‘novo Zico’ e foi integrante das marcantes equipes do Flamengo dos anos 1992 a 1997 e Real Madrid de 1998 a 2003.
Em 1995 criou-se a ideia de que você, Romário e Edmundo formavam o melhor ataque do Mundo. Na prática, porém, os resultados não vieram. Qual foi o motivo de três atacantes tão talentosos não conseguirem o entrosamento esperado?
– Tínhamos tudo para dar certo, mas não tínhamos o mais importante no esporte, que é a união. Faltava entrosamento dentro e fora de campo, um planejamento, estrutura e profissionalismo.

Acha que Neymar, Messi e Luis Suárez podem marcar época atuando juntos, ou as qualidades não são compatíveis?
– As qualidades sempre são compatíveis quando se tem os itens acima citados: união, profissionalismo e espírito de grupo. São três jogadores muito talentosos e têm tudo para triunfar no Barcelona.
Como torcedor do Flamengo, está surpreso com a situação vivida pelo clube, ou em sua época era possível imaginar que o clube chegaria nessa situação por fatores “extra-campo”?
– A situação é muito ruim. O Flamengo é muito grande para passar por um momento como esse. Como torcedor, estou triste, decepcionado e esperando uma mudança imediata. A base e a formação são a história do clube e, se não resgatarmos de uma forma profissional, o futuro do clube será incerto e sempre com problemas como os atuais. É importante também destacar as gestões irresponsáveis no passado, que deixaram o clube com os problemas e dívidas que estamos acompanhando agora.
Em sua opinião, o que faltou para disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira?
– Na verdade não sei. Em duas ocasiões estava muito bem, em 1998 e 2002 estava no auge no Real Madrid e tinha conquistado as Champions League. Mas mesmo assim, continuei tranquilo e não permiti que isso afetasse em nada minha carreira.

Ainda sobre Seleção, ouve-se muito que não temos grandes gerações de talentos como tínhamos até pouco tempo atrás. O que pensa sobre isso? Qual o motivo dessa perda de qualidade, em sua opinião?
– Para mim, a principal responsável é a CBF, entidade que não faz nada pelo nosso futebol. São amadores e sem projeto. Não trabalhamos os talentos como antes: trabalho de base, sólido, profissional, com pessoas competentes que tenham visão de futebol e não interesse financeiro. Chegou o momento de projetos de base, sociais, formação de atletas, de treinadores de longo prazo, só que com pessoas que conheçam e gostem de futebol.
No Real Madrid você venceu três Ligas dos Campeões. Considera que foi o melhor momento de sua carreira como jogador?
– Foi um momento único, inesquecível, onde aprendi muito o que é profissionalismo, grupo e entidade. Foram temporadas que ganhamos tudo e entramos para história. Hoje analiso minha carreira e me sinto orgulhoso, pois jogar quase seis anos num clube como esse não é fácil. Fazer minha história de quase 11 anos no Flamengo começando desde os 14 anos de idade em um clube de muita pressão, três temporadas e três finais com o Zaragoza com 2 títulos,e até o Anorthosis, do Chipre, quando chegamos a Champions pela primeira vez na história do País. Fui quem mais deu assistências naquele ano da Champions na primeira fase. Foram quatro no total e ainda fiz 1 gol. Isso tudo guardo com carinho e sentimento de dever cumprido.

Falando sobre Real Madrid: já conheceu alguma estrutura parecida? O que pensa a respeito do termo “galácticos”?
– A estrutura que tem hoje ainda não vi em nenhum lugar do mundo. Na base e no profissional, só tem uma palavra: profissionalismo.
Foi muito difícil conquistar seu espaço em um elenco que contava com Zidane, Seedorf, Raúl e outros craques?
– Não foi. Na verdade, foi natural. Ganhei meu espaço aos poucos, com respeito, dedicação e muito profissionalismo. Eu fui muito bem recebido pelo clube e jogadores.
Qual o melhor jogador que você viu jogar?
– Que vi jogar Zico e com quem joguei Zidane, Romário e Figo.
É verdade que você tem se afastado até mesmo de peladas de fim de semana? Parar de jogar foi fácil para você? Muitos ex-jogadores dizem sentir falta.
– Foi muito tranquilo, nunca senti falta. Minha carreira foi intensa e comecei jogar com nove anos. Na verdade sabia que a hora ia chegar e me preparei para o momento. Realmente, nem peladas jogo mais. Não curto mais. No entanto, acompanho sempre o futebol Brasileiro e Internacional.
Como está a Sávio Soccer (empresa de agenciamento de atletas)?
– Está bem. Estou desenvolvendo um projeto a longo prazo. Um trabalho feito em detalhes que abrange o pessoal, familiar, esportivo, educacional e financeiro do atleta, com bons e transparentes relacionamentos com o clubes, parceiros e atletas.
Enquanto jogador do Real Madrid, você participou de cursos de administração de futebol e marketing esportivo, o que demonstra sua visão de futuro. Nessa época você já havia definido que seria empresário após sua aposentadoria?
– Realmente foi um curso fantástico, de quase seis meses e aprendi bastante nas áreas de esporte, economia, e finanças. Sempre gostei da aérea empresarial e hoje toco minhas empresas com a mesma motivação de quando jogava. A Bortolini Patrimonial,empresa de imóveis próprios de locações e investimentos, a SavioSoccer, agenciamento de carreira, e também no mercado financeiro como fundo de investimentos próprios e produtos do mercado financeiro.
Alguns agentes de jogadores são tratados de maneira pejorativa na mídia. Mais do que isso, alguns são tratados como vilões por exercerem seu trabalho, que é fazer o melhor para seus atletas. Teme que esse novo ramo possa afetar sua reputação?
– Só resolvi abrir a SavioSoccer e trabalhar com atletas para passar o que aprendi e exercer meus conceitos de profissionalismo, transparência e ética. Não crítico e respeito os profissionais que trabalham desde que tenham ética, o que carrego hoje é o que me deixa mais contente, a credibilidade. Onde chego sou bem tratado e muito bem recebido, mesmo pelos clube que não joguei. Não vou perder nunca a credibilidade que conquistei em todos esse anos.






