A imprensa atua em diversas áreas da sociedade visando levar a você as mais relevantes informações. Há quem diga que a vida de jornalista esportivo é fácil. Acredita nisso?
Imagine-se como repórter esportivo. Pense que todos os dias você conviverá com dirigentes, jogadores e torcedores. Agora visualize-se dentro de um estádio lotado em dia de clássico, cercado por torcedores fanáticos, atentos a cada palavra que você disser. Com isso, você pode ser obrigado a cobrir uma sangrenta batalha entre torcidas organizadas. Assustador não é mesmo? Como agem os repórteres de campo para suportar a pressão? Eles se sentem ameaçados pela torcida?
Esse é o dia a dia de profissionais que lutam por informações sobre as equipes de futebol. Como se não bastasse trabalhar de domingo a domingo, repórteres têm de conviver com torcedores no mínimo inconvenientes. Tudo isso requer que esses profissionais tenham certos cuidados.
“A gente tem muita dificuldade em lidar com o torcedor, pelo seguinte, quando a gente fala torcedor, a gente ta falando de todo mundo”, diz Mauro Naves, repórter da Rede Globo de Televisão.
Adriano Dolph, repórter da TV Gazeta diz que nunca presenciou agressões em jornalistas por parte das torcidas, e pensa que problemas com as torcidas fazem parte da profissão: “já e é normal, faz parte da profissão. São apenas ameaças, xingamentos, etc. Só ganhando experiência mesmo. Com o passar do tempo aprende-se a lidar, e sabe-se dos riscos. Cada situação é diferente.
Jornalismo Esportivo é moleza?
Além das dificuldades naturais da profissão, há também a distância da família. Repórteres sempre estão viajando, inclusive aos feriados e finais de semana. E o pior, nunca aproveitam essas viagens, como afirma Eduardo de Menezes, repórter da rádio Record Transamérica: “o repórter sempre tem uma grande responsabilidade. Viaja muito, mas pouco conhece das cidades, pois sempre está no trajeto avião-hotel-estádio. Nas transmissões somos os mais acionados.
Para Leo Gomide, setorista do São Paulo pela rádio Tupy AM, a apuração das notícias nos bastidores e atuação em meio briga de torcidas é o que há de mais estressante na profissão: “muitas vezes, os contatos têm de ser feitos com diretores e empresários. Nem sempre o acesso é fácil.” Sobre confrontos de torcidas organizadas, Gomide nunca passou por essa situação, mas acredita que intervir pode ser um risco. “No entanto, se houver alguma margem de segurança, estar atento ao fato pode gerar uma grande pauta.”
Ambos acreditam que é muito gratificante ser repórter esportivo, apesar das dificuldades.
Menezes ressalta as qualidades do serviço prestado pelos jornalistas: “O jornalismo esportivo tem diversas facetas. Serve como prestador de serviços para o torcedor que se dirige ao estádio ou sai dele. Serve também para entreter, contar histórias, lembrar de fatos marcantes através do esporte. Não é algo que deve ser analisado de forma separada do jornalismo geral, que é de suma importância para tentar mudar uma sociedade.”
Já Gomide acredita que a função do jornalismo não é mudar o futebol. Para ele, há uma série de coisas mais importantes: “policiar, averiguar, investigar o que demonstra estar errado, e, consequentemente tornar público. Claro, sempre dotado de provas factuais. Porém, disseminar idéias e opiniões é de suma importância.”
Cobertura de clássicos
Torcedores ficam sempre ansiosos em semanas de clássicos. Jogos de rivalidade regional sempre são um atrativo a mais nos campeonatos, independentemente dos times estarem bem ou mal na competição. Corinthians x Palmeiras, Flamengo x Fluminense, Grêmio x Inter, entre outros fazem parte da cultura do futebol brasileiro. Para os jornalistas, os jogos são tão especiais quanto para os torcedores, uma vez que a exposição de suas idéias será maior que em jogos comuns.
Gomide acredita que trabalhar em um clássico é sempre um prazer: “Nenhum receio de trabalhar em clássico, pelo contrário, eles são os jogos mais prazerosos de acompanhar, clima é outro, também para o repórter.”
Menezes, diz que sua preparação é a mesma para todos os jogos, mas em clássicos fica mais ansioso do que o costume: “me preparo sempre para qualquer jogo como se fosse a final da Copa do Mundo, pesquisando. Em relação aos clássicos, fico muito ansioso para fazer um excelente trabalho”.
Ultimamente, além da torcida, os repórteres enfrentam outro desafio: o mau-humor dos treinadores após derrotas. Muricy Ramalho, Dunga, Maradona, Luxemburgo, Felipão, entre outros lançaram a moda de dar respostas grossas, atravessadas, e por vezes até mal educadas aos entrevistadores. E aí, ainda acha que a profissão é fácil?
Jornalistas e seus times
Muitos jornalistas são ameaçados, simplesmente porque a torcida supõe que ele torça para um determinado time. Há profissionais que divulgam seus times e outros que os escondem a sete chaves.
O blogueiro Rica Perrone afirma que se arrepende de divulgar seu amor pelo São Paulo Futebol Clube. Segundo ele, por conta disso, sofre diversas acusações irracionais nos comentários de seu blog, principalmente se ele critica o próprio time: “Foi a maior besteira que eu fiz na minha vida, falar o time que torço (São Paulo). e prejudiquei porque a torcida do São Paulo me cobra como São Paulino, jamais como jornalista. Quando você diz o time que torce, o torcedor não entende as críticas que você faz ao seu time. É muito comum você ver na internet ou qualquer bate papo de boteco, você falar assim: “Ah, mais o André Risek (jornalista), escreveu tal coisa”. E o torcedor comum vira e diz: “Mas aquele corintiano…”.
O jornalista Leonardo Bertozzi é um atleticano (MG) fanático, inclusive ajudou a montar o site oficial do clube. Porém, ele acredita que nenhum jornalista é pago para torcer, e sim para trabalhar: “a partir do momento que eu sento para escrever, ou entro no ar para comentar, minha paixão clubística fica de lado. Alguns cruzeirenses pegaram no meu pé por conta de alguns comentários, mas isso é normal. Não podemos nos abalar com críticas sem fundamento. Tenho certeza absoluta que meu trabalho é imparcial e íntegro”.
Mauro Naves optou por não divulgar sua agremiação favorita, dizendo que no jornalismo as coisas não devem se misturar: “eu nunca perdi. Há 20 e tantos anos que eu fico atrás do gol que eu não posso torcer por um gol. Eu fui na arquibancada de jogo de vôlei com a minha prima e eu não sabia mais ser torcedor. Sabe quando você não sabe mais torcer? Porque faz 23 anos que eu fico em todas as finais de campeonato brasileiro. Todas. Atrás do gol, parado, ao lado do branco. Não posso falar ‘êêê’ nada, não dá. Então eu escolhi ficar frio nesse negócio, não falar meu time.
Mauro diz que é uma profissão imprevisível, e fala sobre um caso curioso que se passou na Arena da Baixada, Estádio do Atlético Paranaense: “Você não sabe se algum dia vai apanhar ou não, graças a Deus eu nunca fui agredido, mas os caras vêm pra cima falando ‘filma não, filma não. Uma vez eu estava na arena da Baixada, em Curitiba (PR) e um torcedor implicou comigo. Era só a mim que ele xingava, berrava, etc. Ao fim do jogo, o mesmo cara se aproximou de maneira dócil com sua namorada e pediu para tirar uma foto comigo. Eu tirei a foto com a mulher dele, mas com ele não”.
Por essas e outras que não podemos saber o que se passa na cabeça de um torcedor. Uns são fanáticos, outros mais lúcidos. Existem os violentos e os comportados, os fervorosos e os ausentes. A única certeza é que o futebol é um esporte apaixonante.






