Cristiano Ahmed é um técnico muito jovem. Com apenas 35 anos de idade tem a missão de liderar a equipe masculina de basquete do São José – campeã paulista de 2015– na atual temporada do Novo Basquete Brasil (NBB), principal torneio da modalidade no país.
São José vem de duas vitórias fora de casa contra Vitória e Basquete Cearense, e uma derrota em casa contra Pinheiros.
“O NBB tem um nível técnico melhor pela qualidade das equipes e pelos reforços que agora chegaram. Acho que a gente vai buscar primeiro a classificação para os play-offs. Vamos brigar por fora e tentar fazer um bom campeonato”, ele afirma.
A seguir confira a entrevista do treinador ao Esquema de Jogo. Ele falou sobre o título paulista, a preparação da equipe para o NBB e também do atual momento da seleção brasileira masculina de basquete, que vai disputar os Jogos do Rio-2016.
Esquema de Jogo: São José conquistou o Campeonato Paulista vencendo Mogi das Cruzes na final. O que foi mais decisivo para essa campanha vitoriosa: a qualidade do elenco, a preparação bem feita ou foi uma junção desses dois fatores?
Cristiano Ahmed: O mais importante foi a união do grupo. Foi um grupo que não tinha estrelas. A gente conseguiu fazer um trabalho que todo mundo acreditou, todos se uniram para fazer e a filosofia foi bem-vinda. Isso foi importante, os jogadores terem essa dedicação e principalmente terem entendido essa filosofia de trabalho.
A final foi decidida no terceiro e último jogo da série melhor de 3 jogos. Em jogos grandes, os detalhes fazem a diferença. Em que a sua equipe foi melhor do que o adversário na final do Paulista?
Na final nós fomos melhores taticamente e defendemos muito bem. Mesmo tomando mais de 80 pontos, conseguimos neutralizar alguns movimentos e algumas jogados do adversário. O Shamel – jogador do Mogi das Cruzes – acabou fazendo mais de 20 pontos, só que ele jogou para muito mais que isso, nós acabamos forçando ele aos erros. Isso foi um ponto decisivo. Os arremessos de três pontos também foram decisivos, foram nossa arma durante todo o campeonato e no último jogo da final tivemos um aproveitamento da linha de três pontos muito melhor que o time de Mogi das Cruzes.
Você sempre acreditou no título ou ao longo do campeonato foi percebendo que a equipe poderia chegar longe?
Nós sempre trabalhamos para sermos campeões, mas sabíamos que seria difícil. Tinham várias equipes favoritas ao título e ao longo do campeonato, passo a passo, nós fomos vendo que poderíamos ficar entre os quatro melhores. Depois quando enfrentamos Rio Claro na semifinal vimos que poderíamos alcançar a final. Na decisão contra Mogi, ganhamos a primeira partida em casa, fizemos a lição de casa bem feita e sabíamos que se nós conseguíssemos levar o jogo equilibrado do começo ao fim em Mogi, a responsabilidade deles aumentaria e eles teriam dificuldades de vencer a partida, também pelo fato da pressão da torcida que poderia atrapalhar a equipe deles emocionalmente.
Agora vocês têm um desafio ainda maior, que é o NBB. O Campeonato Paulista serviu como uma excelente preparação para o campeonato nacional?
O Campeonato Paulista serviu sim como uma grande preparação para o NBB. Sabemos que o Campeonato Paulista é o melhor regional do país, 12 equipes disputaram e fizemos quase 20 jogos e todos de alto nível. Nós não tivemos muitos jogos fáceis, todos os jogos apresentaram dificuldades.
Existe muita diferença de nível técnico entre essas duas competições?
O NBB tem um nível técnico melhor pela qualidade das equipes e pelos reforços que agora chegaram. O time do Pinheiros trouxe mais um jogador norte-americano, Bauru vai jogar com o time completo, o Paulistano dispensou um jogador e deve trazer outro, Sorocaba também. E fora outras equipes como Flamengo e Brasília.
Fora o São José, quais as equipes favoritas ao título do NBB?
As favoritas são Flamengo, Bauru, Brasília, Paulistano, que tem um plantel muito bom. Mogi das Cruzes, que foi vice-campeão paulista, e tem uma grande equipe. Essas cincos são as favoritas ao título. Não coloco a equipe de São José como favorita, de forma alguma. Acho que a gente vai buscar primeiro a classificação para os play-offs. A gente vai brigar por fora e tentar fazer um bom campeonato.
Você acha que a sua equipe tem um destaque individual ou a força do grupo é a grande característica desse elenco?
Eu acho que a gente tem uma qualidade individual sim. O Jamaal fez a diferença em alguns jogos do Campeonato Paulista. É um jogador que fez um excelente NBB no ano passado. Ele tem uma qualidade muito boa. Mas a qualidade do nosso grupo supera a qualidade individual. Tem jogo que um jogador vai melhor, em outra partida outros dois jogadores se destacam. O que vale muito é a característica do elenco.
Tem algum jogador novo, que veio das categorias de base, que pode se tornar uma revelação de São José nessa temporada?
Nós temos o João Pedro que é um menino que está conosco desde os 10 anos de idade. Ele vem evoluindo bastante e vai estar no plantel para o NBB. Para revelação eu acho que ele ainda não vai ser, só que vai atuar bastante. Ele tem qualidade e já passou por seleção brasileira de base. E tem o Jonathan Miller que é um pivô que veio do juvenil e tem muita qualidade. Mas acho que a palavra revelação é muito forte. Eles são bons jogadores, com qualidades, mas talvez não revelações.
Você foi assistente técnico do Luiz Zanon e foi efetivado como treinador no meio do ano. O que você absorveu de positivo nessa convivência profissional que teve com ele?
Trabalhei um grande tempo com o Zanon e, claro, absorvi bastante coisa. É um cara fantástico, tem um grande trabalho feito na seleção feminina e também fez um ótimo trabalho aqui com o São José. É um grande amigo, a gente sempre ficava junto, conversando. Na beira da quadra ele tem um comando muito bom, eu tento usar bastante das coisas que ele usava para conseguir administrar bem o grupo.
Você sente que está no auge da sua carreira? Se sente totalmente preparado para construir uma história vitoriosa com a equipe?
Não sei se o auge, acho que tenho muito o que aprender ainda. Sou um técnico jovem, tenho 35 anos. Foi muito importante a conquista do Campeonato Paulista desse ano, mas dizer que eu já estou no auge da minha carreira é pesado, tendo em vista que comecei agora como técnico, são três meses de trabalho com o São José. O NBB vai ser uma grande vitrine, um grande aprendizado. A nossa equipe vai ter que evoluir bastante se quiser chegar em algum lugar e eu também como técnico.
Você trabalhou com as equipes sub-19 e sub-22 de São José. Além da idade, há muita diferença em trabalhar com os garotos e com jogadores mais velhos e já profissionais?
Tem muita diferença no sentido de administrar. Trabalhei com sub-14, sub-15, sub-19. A parte tática e a parte técnica você ainda consegue colocar a sua filosofia. Mas realmente o mais difícil com os garotos é administrar os egos, mas eu nunca tive problemas nem indisposição com nenhum jogador.
Os Jogos Olímpicos do Rio-2016 estão chegando. Você acha que a seleção brasileira tem chances de conseguir uma medalha?
Eu acho que se a seleção conseguir jogar completa, com os jogadores que atuam na NBA, e todos nas suas melhores formas, acho que a equipe consegue fazer uma semifinal e ficar entre as quatro melhores nas Olimpíadas. Se o Brasil não tiver a equipe completa, ou tiver algum jogador machucado, ou que não esteja em um nível técnico muito bom, acho que complica um pouco e as chances diminuem bastante.
Acha que o Rubén Magnano vem fazendo um bom trabalho no comando da seleção brasileira?
Ele conseguiu trazer da Argentina uma filosofia de que é preciso defender bastante e ter uma dedicação muito grande se você quiser alguma coisa. São algumas das principais virtudes dele. Eu pude observar alguns treinos dele e a intensidade das atividades é fantástica, cada treino é um jogo. Ele conseguiu trazer isso para o basquete brasileiro. A gente sempre teve uma qualidade boa, porém a nossa intensidade não era tão boa. A seleção joga em um outro nível devido à essa intensidade.
Na sua opinião, o que falta para o basquete crescer mais no país e voltar a ser considerado como o segundo esporte preferido dos brasileiros?
Falta apoio. Outras modalidades como natação, vôlei e principalmente o futebol tem muito mais apoio, mais parceiros, mais patrocinadores do que o basquete, que é visto hoje como o esporte que está se reerguendo, porém ainda não tem o apoio necessário que a gente acha que é o correto para chegar em um nível melhor e ser tranquilamente o segundo esporte do país.






