Opinião: O calendário do futebol, sobrecarregado, deixa evidente a necessidade de clubes e mercado romperem com as federações.
As entidades estaduais subtraem receitas dos clubes com transmissão, patrocínios e bilheterias.
Para piorar, interditam qualquer chance de progresso no futebol.
O modelo atual se esgotou.
Se você nunca ouviu a torcida cantar esta, não tem nada de errado.
A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, a FERJ, não tem torcedores.
A entidade só existe para regulamentar a prática do futebol, ou pelo menos deveria ser esta a sua finalidade.
Também não existem torcedores da federação paulista, da gaúcha ou da mineira.
Nem de nenhuma federação do Nordeste ou do Norte.
Ninguém.
Apesar disso, a federação se apropria do futebol.
Vai além.
A federação estadual interdita qualquer chance de progresso no futebol brasileiro.
Vejamos o calendário divulgado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) na noite de quarta-feira (19), na expectativa de que as pessoas estivessem ocupadas demais com a rodada para prestar atenção no entorno.
Em 24 de fevereiro, quarta-feira, acabará o Campeonato Brasileiro de 2020.
Festa!
Que não durará muito, porque em 28 de fevereiro começarão os estaduais de 2021.
Sem férias, sem pré-temporada.
Sem pausa nem para a Copa América, quando a seleção brasileira acabará desfalcando um aqui e outro ali.
As consequências esportivas são previsíveis.
Quando um jogador é submetido a partidas quarta e domingo, quarta e domingo, sem parar nenhuma vez por um ano e meio, aumenta consideravelmente a chance de lesões.
A recuperação física será comprometida.
O treinamento para reparar questões técnicas ou táticas não existirá.
O atleta que se vire.
Comercialmente, este quadro não interessa a ninguém.
As emissoras transmitirão partidas desgraçadamente ruins.
Os patrocinadores terão menos motivos para gastar.
Os torcedores continuarão a perceber a diferença medonha entre uma partida de Campeonato Brasileiro e uma de Liga dos Campeões.
Nem se desse para ir a estádio seria bom.
Poderia ser diferente?
Lógico que sim. Se logo no início da pandemia do coronavírus o futebol brasileiro fizesse o básico, cancelaria os estaduais de 2020.
Entregaria o troféu para quem estava na frente, suspenderia rebaixamento, socorreria clubes pequenos.
Vida que segue.
Que nada.
Se para o calendário seguinte fossem feitas concessões, como um estadual muito menor, ou até mesmo seu cancelamento, também poderia haver um quadro um pouco mais racional.
Afinal, melhor desistir dos campeonatos de menor impacto financeiro do que dos nacionais e internacionais.
Qualquer criança sabe disso.
As federações não deixam.
Para onde vai o dinheiro do torcedor?
Tim Vickery, jornalista inglês, oriundo de um lugar onde campeonatos estaduais não existem, me perguntou durante o Redação SporTV: por que os clubes não fazem nada contra a estrutura federativa?
Submissão, omissão e um pouco de burrice, eu respondi.
Talvez o torcedor não se dê conta ou não tenha esta informação, mas as federações subtraem uma fortuna dos clubes anualmente.
Dos direitos de transmissão, elas ficam com 10%.
Das bilheterias, outros 10%.
Patrocínios que poderiam ser dos clubes vão parar nos cofres das entidades.
Além de taxas de inscrição, registro, toda a burocracia.
Em números referentes a 2019:
R$ 5 milhões foram arrecadados pela FERJ com patrocínios, em concorrência direta com os clubes de futebol.
R$ 10 milhões foram arrecadados pela FERJ com bilheterias; Botafogo, Fluminense e Vasco têm prejuízos ou receitas pífias.
R$ 12 milhões foram arrecadados pela FERJ com direitos de transmissão, às custas da popularidade dos chamados grandes clubes.
R$ 875 mil foram repassados para aFERJ pela CBF como auxílio, dinheiro que a confederação consegue por meio da seleção brasileira.
R$ 4 milhões foram arrecadados pela FERJ com taxas de registros, transferências, rescisões e multas aplicadas pelo TJD-RJ (Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro).
A estrutura de arrecadação é quase sempre a mesma.
Televisão, bilheteria, patrocínio.
Essas três receitas são diretamente subtraídas das contas dos clubes, pois as entidades não têm torcedores e se apropriam do apelo das agremiações.
Taxas e mesada da CBF complementam.
Para ter uma noção de quanto dinheiro é redirecionado para os cofres das federações estaduais, essas foram as maiores receitas em 2019:
R$ 56 milhões – FPF (Federação Paulista de Futebol – São Paulo)
R$ 32 milhões – FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro)
R$ 15 milhões – FGF (Federação Gaúcha de Futebol – Rio Grande do Sul)
R$ 13 milhões – FMF (Federação Mineira de Futebol – Minas Gerais)
R$ 6 milhões – FCF (Federação Catarinense de Futebol – Santa Catarina)
Cada vez que o torcedor compra um ingresso, assina um pay-per-view ou consome o produto de um patrocinador, parte do dinheiro dele é redirecionado para as federações.
Poderia pagar salários de jogadores, investimentos em categorias de base, contratação de reforços.
Mas acaba bancando prédios nababescos, pequenos playgrounds de poder e cabides de empregos da burocracia do futebol.
Por onde poderia começar a reforma?
Conceitualmente, não é muito difícil encontrar um modelo saudável para federações estaduais.
Se elas fossem uma espécie de agência de fomento, com estruturas enxutas e profissionais contratados para desenvolver o futebol, elas teriam a existência justificada.
Esta estrutura federativa poderia ser financiada com o dinheiro arrecadado pela confederação, a CBF, por meio da seleção brasileira.
Tratando-se de uma entidade que fatura para lá dos R$ 900 milhões, e só tem torcedores por causa do patrimônio público que é a seleção, daria para fazer muito mais do que uma mesada de R$ 1 milhão por ano.
De novo conceitualmente, também não é difícil pensar num calendário mais proveitoso para o futebol brasileiro.
Clubes de divisões nacionais precisam jogar menos; clubes com competitividade apenas estadual necessitam de um calendário para jogar a temporada inteira.
Ouçam os atletas.
Ouçam os árbitros.
Ouçam a mídia.
Ouçam os torcedores.
O nó político e econômico que impede qualquer reforma nesse sentido é a federação estadual.
Se ela perder seu tradicional campeonato, não poderá subtrair dos clubes as mesmas receitas com televisão, bilheterias e patrocínios.
Como a CBF nada mais é do que a conjunção de todas as federações, nem tampouco dá para esperar por iniciativa dela.
Sobram as seguintes opções:
Clubes deveriam fundar uma liga para tomar decisões estratégicas, desde a reforma do calendário até a venda centralizada dos direitos de transmissão.
Eles têm torcedores.
Eles são a razão da existência do futebol.
A desunião da cartolagem é um problema crônico, no entanto.
A Globo e demais emissoras poderiam suspender o financiamento da estrutura federativa.
Estaduais são ruins de audiência e público, apesar de dois ou três clássicos com algum Ibope.
O pay-per-view não pode ficar sem clientes por quatro meses, é verdade.
Mas o modelo que está em vigor claramente se esgotou
Que o mercado já sabe da urgência por reformas estruturais no futebol brasileiro, em especial no meio da crise generalizada atual, não há dúvida.
A pergunta é: quem terá a coragem e o mérito de mudar?
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro





