Relembrando mais uma matéria minha da Revista Fora de Campo postarei agora uma matéria sobre o fim da carreira dos jogadores de futebol.
Por que mesmo após encerrar suas carreiras, ex-jogadores não conseguem abandonar o futebol?
Carros importados, tietagem, noitadas, badalação… Tudo isso faz parte da rotina de um jogador de futebol que tenha certo destaque na profissão. Mas nem todos conseguem tanto. Alguns nem mesmo chegam a se tornar profissionais. Mesmo sendo tão difícil, não é raro vermos que ex-jogadores continuam atuando no meio do futebol, seja profissional ou amador. Pelo contrário, há quem opte por virar treinador, comentarista, dirigente, empresário, etc. A Revista Fora de Campo foi atrás de histórias curiosas de jogadores que já penduraram as chuteiras e seguiram diferentes rumos na vida.
Dos Estádios para a delegacia (Calma! Não é o que está pensando)
Ivan Manoel de Oliveira (mais conhecido como Badeco), ex-volante de Corinthians e Portuguesa é um caso raro no Mundo do esporte bretão. Ao encerrar a carreira, tornou-se delegado. “Como meu pai foi jogador, ele sempre tocava no assunto que eu deveria estudar. Ele dizia que um dia eu teria que parar de jogar futebol e com estudo eu não me perderia nunca.”
Badeco se formou em advocacia durante a carreira de jogador: “eu fui jogar no Rio de Janeiro. Lá, eu tive um professor que era torcedor do América, time em que eu jogava na época. Ele me levou para prestar vestibular de direito. Eu me lembrei do juiz da minha cidade (Joinville), que era um cara sóbrio e de reputação inabalável. Por isso resolvi fazer advocacia. Mas foi só para ter algum estudo para quando eu parasse de jogar. As ações das pessoas fazem você tomar algumas atitudes. Eu queria ser igual aquele juiz da minha cidade. Eu fui advogado, depois prestei concurso para Polícia Federal, passei e virei delegado”.
Dos estádios para a Câmara dos Vereadores
Biro Biro, folclórico jogador corintiano decidiu se dedicar à política. Em 1988, no auge de sua carreira teve expressiva votação da massa corintiana e se elegeu vereador da cidade de São Paulo pela primeira vez. Depois disso se aventurou como treinador, mas não durou muito tempo: “Eu segui carreira de treinador e coordenador em clubes menores após meu primeiro mandato. Trabalhei em times do interior de São Paulo como o Mauaense e Francana. Mas logo fui eleito pela segunda vez vereador e saí um pouco do futebol”.
Dos estádios para os escritórios, as cabines de transmissão e para os… Estádios???
Mário Sérgio foi um habilidoso meio-campista do futebol brasileiro. Passou por diversos clubes. Assim como em seu tempo de jogador, nunca ficou muito tempo em um emprego fixo. Isso é normal para quem escolhe a profissão de treinador. Principalmente no Brasil, onde o técnico é supervalorizado e sempre responsabilizado por maus momentos de seus times. Mário Sérgio se tornou técnico logo após encerrar a carreira. “O presidente do Vitória era muito meu amigo e me ofereceu a vaga de treinador. Eu aceitei mesmo recebendo uma quantia simbólica como salário, porque sabia das dificuldades do clube e eu não tinha nenhuma experiência no cargo.
Mesmo assim, Mário Sérgio conseguiu realizar uma boa campanha: “Consegui trazer alguns amigos meus para jogar pelo clube e só perdemos o Campeonato Estadual para o Bahia, que foi campeão brasileiro um ano depois, ou seja, um baita time”.
O curioso é que Mário não trabalhou apenas como treinador após encerrar a carreira: “eu fui diretor do Excel na parceria em que o banco tinha uma gestão sob 4 clubes: Vitória, América (MG), Botafogo e Corinthians. Eu representava a empresa nas tratativas com esses clubes. Foi uma época muito boa. Subimos o América de divisão, o Corinthians foi campeão, e o Botafogo venceu o Rio-São Paulo”.
Para quem pensa que acabou aí vai uma surpresa. Ele também trabalhou como comentarista de transmissões. “Passei por diversas emissoras de rádio, e todas as emissoras de TV do Brasil. Eu tinha um contrato com a Bandeirantes que me liberava caso algum time me oferecesse o cargo de treinador. Sempre que eu saía dos clubes, voltava à Bandeirantes como comentarista.”
A hora do ponto final
Se aposentar não é fácil para ninguém. Mas para um jogador de futebol, que tem carreira curta, e se acostuma com a rotina de treinos essa hora se torna ainda mais difícil.
Badeco parou de jogar por conta de lesão, mas revela não ter sentido muito impacto emocional nessa hora complicada: “Parei de jogar em 1978, depois de romper o tendão de Aquiles. Já planejava parar. Até porque em janeiro daquele ano eu assumiria o cargo de delegado. Como eu tive a contusão, não tive esse problema que os outros têm de pararem definitivo. Eujá sabia que não voltaria mais a jogar. A recuperação naquela época não era igual hoje”.
Mesmo assim, ele revela do que mais sente falta no futebol: “eu sentia falta do domingo. De concentrar no sábado, do público me aplaudir ou me vaiar. Sentia falta de dar entrevistas, de passar na rua e das pessoas me cumprimentarem. Sempre achei que o grande momento do futebol é quando você entraem campo. Ogol é outro grande momento, mas a entrada em campo nos grandes jogos para mim é o grande espetáculo. O resto eu nem lembro mais, mas sinto saudades. Por isso que tem cara que nem assiste mais futebol, porque você gostaria de estar lá”.
Mário Sérgio aproveitou a hora de pendurar as chuteiras para dar o “último gás” e provar seu valor: “Parei de jogar com 38 anos, em 1987. Voltei do Belinzona da Suíça já pensando em parar de jogar, quando um conselheiro do Bahia me convidou a jogar o campeonato brasileiro. Tive problemas com o treinador Orlando Fontani, pois ele não me dava oportunidades, porque não tinha aprovado minha contratação devido à minha idade. Conversei com a diretoria e pedi que ele me desse um coletivo. Arrebentei nesse treino, ele me escalou e eu joguei bem. No final do jogo ele veio me cumprimentar, eu lhe dei minha camisa e disse que não jogaria mais. Não quis arrumar briga com ele. Apenas quis mostrar meu valor”.
Biro Biro parou de jogar de maneira planejada e já exercendo outra função: “Parei porque já tinha programado. Eu poderia ter continuado a jogar, mas não quis mudar meu planejamento. E já tinha entrado na política. Não senti tanto impacto, pois eu já sabia que essa hora ia chegar”.
Por que é tão difícil largar o futebol? Qual é a hora certa de parar?
Dois questionamentos ficam após essas declarações: Por que jogadores não conseguem abandonar o futebol, mesmo após pendurar as chuteiras? Existe uma hora certa para parar?
Para Badeco, os jovens vislumbram ser como Ronaldo ou Kaká. Isso acaba desiludindo muita gente, pois há uma ressalva: “esses caras são exceções. Isso não acontece com todo jogador. Nem todos serão como eles”.
Mário Sérgio acha que a autocrítica é fundamental para decidir quando parar de jogar: “A hora certa é quando nós sentimos que os adversários passam e não podemos acompanhá-lo. No corpo a corpo não resistimos mais. O segredo é a autocrítica. Eu parei quando muitas pessoas queriam que eu continuasse, mas eu não aguentava mais”.
Por fim, Biro Biro explica qual é a dificuldade de se abandonar o futebol: “a vida inteira de um jogador é vinculada ao esporte. O cara vive futebol 365 dias por ano. E antes de jogar, já pensava em futebol porque sempre teve isso como sonho de vida. É muito complicado se pensarmos por esse lado”.
Hoje em dia, Badeco é diretor da ONG Craques de Sempre, juntamente com outros famosos ex-jogadores como Basílio (Corinthians) e Félix (Goleiro do Brasil na Copa de 70). A instituição tem o objetivo de ajudar garotos a conseguirem um futuro melhor através do futebol.
Biro Biro trabalha com assessoria de imagem de um vereador de São Paulo, mas aguarda convites para retornar ao futebol, seja como comentarista, dirigente ou membro de comissão técnica de algum clube.
Mário Sérgio foi o único dos três que nunca abandonou o futebol. Hoje em dia, porém, trabalha apenas como técnico. Destaque para sua última passagem pelo Internacional, pois chegou como tapa-buracos após a demissão de Tite e classificou a equipe gaúcha para Libertadores 2010, ao chegar em 2º no Campeonato Brasileiro. Esse ano, o Inter foi campeão da competição sul-americana.
O que os três têm em comum? Ambos foram jogadores de destaque por onde passaram. Nunca conseguiram se livrar do futebol. O esporte sempre esteve presente em suas vidas e mesmo quando tentaram sair, o futebol os chamou de volta.






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