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Alexandre Gama ganhou destaque no futebol brasileiro em 2004. Antes técnico das categorias de base do Fluminense, o treinador teve a chance de comandar a equipe principal durante o Campeonato Brasileiro daquele ano, onde o clube das Laranjeiras lutava para escapar zona do rebaixamento.
Nesse período, ficou famoso um entrevero do treinador com ninguém menos do que Romário. Alexandre sacou o atacante do time, despertando a ira do Baixinho. O conflito fez com que poucos dessem atenção ao trabalho de recuperação desenvolvido por Gama, que tirou o time da degola e terminou a competição na 9ª posição.
Em 2010, após passagens por Inter de Limeira, Emirados Árabes, Volta Redonda, Macaé e Gyeongnam, da Coreia do Sul, outra grande oportunidade apareceu na carreira do carioca. Alexandre assumiu a seleção coreana visando a classificação para a Copa do Mundo no Brasil. Apesar da terceira colocação na Copa da Ásia e de liderar seu grupo nas Eliminatórias, uma briga política na federação local fez com que toda a comissão técnica fosse demitida.
Depois de dirigir Madureira, Duque de Caxias e Al-Shahaniya, do Qatar, Alexandre aceitou o desafio de assumir o Buriram United, da Tailândia, que acabou se tornando o grande trabalho de sua carreira. Entre 2014 e 2016, o treinador conquistou nada menos que oito títulos, que o levaram a receber o prêmio de melhor treinador do país pela Federação local. O único troféu que lhe faltou foi o da Liga dos Campeões da Ásia.
Sem entrar em acordo para renovação do contrato, Alexandre deixou o Buriram e agora aguarda propostas de um novo clube. Em entrevista exclusiva ao Esquema de Jogo, o técnico fala, entre outros assuntos, sobre o trabalho desenvolvido na Tailândia, faz críticas à constante troca de treinadores no Brasil e revela a frustração por não ter dirigido a Coreia no Mundial. Confira:
Esquema de Jogo: Até quando ia seu contrato com o Buriram?
Alexandre Gama: Meu contrato acabava em dezembro de 2016 e já estávamos conversando para renovar, mas não chegamos a um acordo, por isso saí agora.
EJ: Você teve algum tipo de receio de ir para a Tailândia?
AG: Quando recebi a proposta da Tailândia eu estava no Qatar, mas me fascinou a oportunidade de ir para um país novo e com poucos treinadores brasileiros. Pensei em colocar meu nome na história e fazer algo diferente. Me adaptei super bem e o clube me surpreendeu pela estrutura e organização. Quando cheguei, o time estava em oitavo lugar na liga e nove pontos atrás do primeiro colocado. Em um mês estávamos em primeiro. Os jogadores entenderam meu estilo e fomos campeões em 2014.
EJ: Você disse em uma entrevista que o paternalismo acaba prejudicando a relação dos jogadores com os treinadores no Brasil. Você enfrentou esse tipo de problema no exterior?
AG: Nunca. Aqui fora é tudo muito profissional. Muitas pessoas pensam que futebol só existe na Europa ou no Brasil. Aqui na Ásia os grandes times estão com muita estrutura e são muito profissionais. Esse problema aqui não tive e os jogadores sabem como funciona, inclusive os brasileiros que jogam por aqui. Eles percebem como tudo é tratado.
EJ: O que faltou para o Buriram ir mais longe na Liga dos Campeões da Ásia?
AG: A Liga dos Campeões da Ásia é muito difícil pela qualidade dos times e também por causa das viagens. No ano passado fomos bem, mas faltou experiência. Hoje o futebol tailandês está investindo bem em estrutura e jogadores de alto nível, além de ter bons treinadores de todos os países. A liga é muito forte e com muito público. A seleção nacional tem um time jovem e muito bom. Isso vai fazer crescer mais ainda o futebol lá e os times vão ter mais experiência e confiança.
EJ: Qual o melhor trabalho de sua carreira até aqui?
AG: Meu melhor trabalho foi no Buriram, especialmente em 2015. O Buriram é o maior time da Tailândia e o quinto maior da Ásia, a pressão lá é gigante. Sem dúvida foi o ano mais espetacular da minha carreira, ganhamos todas as competições possíveis na Tailândia e só não ganhamos a Liga da Ásia. Foram cinco títulos invictos e batemos todos os recordes do país, número de vitórias, gols, tudo que você pode imaginar. Fui eleito o melhor treinador da Tailândia e da Ásia. Consegui o que planejei, que foi colocar o meu nome na história do futebol tailandês. Nenhum treinador teve os meus números.
EJ: Você sentiu falta do mesmo envolvimento dos torcedores com os times em comparação com o Brasil?
AG: Em termos de torcida, na Tailândia é muito bom. Os estádios estão sempre cheios e eles vão para torcer e se divertir. Na Coreia do Sul há torcida, mas nada que se compare a Brasil ou Tailândia.
EJ: A troca constante de treinadores no Brasil é algo que te faz pensar em ficar mais tempo no exterior?
AG: No Brasil não entendem que para se fazer um bom trabalho e consistente nós precisamos de tempo. Lá fora eles te contratam e dão tempo para você trabalhar, mas também cobram resultado.
EJ: Ficou algum tipo de frustração por ter participado da campanha da Coreia nas Eliminatórias e não ter sido o técnico na Copa do Mundo?
AG: Sim, foi muito frustrante não ter ido à Copa no Brasil. Seria a realização de um sonho e ao mesmo tempo um voo gigante no planejamento da minha carreira.
EJ: No Fluminense, muito se fala sobre seu episódio com o Romário, mas pouco sobre a recuperação do time naquela temporada. Isso te chateia?
AG: Sim, isso é um problema no Brasil, não se valoriza o trabalho feito. Naquele Campeonato Brasileiro (2004) eu fui um dos melhores no aproveitamento em número de pontos, isso jogando só o segundo turno e três jogos do primeiro. Se eu estivesse com o time desde o começo e mantivesse a média, brigava para ser campeão. Eu tinha 36 anos e só se falava naquele episódio. Eu acredito que um treinador deva ser avaliado pelo seu trabalho ao longo dos anos. Meu histórico desde aquela época é muito bom em todos os lugares que eu fui, mas no Brasil não olham isso. Lá fora eles olham e isso é planejamento, porque contratam pelo trabalho e não pelo nome.
EJ: Pretende seguir mais tempo no futebol tailandês ou planeja uma volta ao Brasil?
AG: Gosto muito de trabalhar na Ásia, pois aqui sou valorizado e respeitado, mas sou profissional e onde for bom para mim eu vou. Uma volta ao Brasil seria ótima, mas acho mais fácil ficar por aqui (Ásia).