Uma história de duas lendas e algumas lágrimas

Após terminarem em primeiro lugar de seus grupos, Bayern de Munique e Valencia foram derrotando seus adversários nas partidas de mata-mata da edição de 2000-01 da Champions League, até enfim culminarem como as equipes protagonistas do embate na grande final, que teve como palco o mitológico estádio San Siro, de Milão. O Bayern não levantava a taça desde 1976 e buscava sua quarta conquista da competição continental, enquanto os espanhóis do Valencia viviam um momento único em sua história recente, podendo vencer o que seria o título mais importante do clube, após recentemente vencer a  Copa da UEFA, na temporada 2003-04.

Ambas as equipes contavam com goleiros mitológicos de suas histórias em seus escretes: do lado bávaro, Oliver Kahn e sua inconfundível expressão fechada, cenho franzido e agilidade que lhe rendera a Bola de Ouro na Copa do Mundo de 2002, quando se sagrou vice-campeão com a Seleção Alemã; do outro lado a meta era guardada por um goleiro relativamente baixo para os padrões atuais. Com apenas 1,80 de altura, mas com exímia colocação entre as traves e impressionante impulso, Cañizares era o líder da sólida defesa valencianista.

Como muito se esperava, os dois arqueiros foram os nomes da partida e são os responsáveis por fazer com que esse jogo tenha seu lugar nos anais da história futebolística, no entanto o grande momento da partida não foi alguma defesa espetacular praticada pelas suas luvas, e é isso que faz dessa final algo tão especial.

No jogo, os times fizeram uma partida corrida e equilibrada. Os espanhóis saíram na frente do marcador com pênalti convertido pelo meio-campista Mendienta com apenas três minutos de bola rolando, e ainda antes do intervalo Santiago Cañizares foi o responsável por manter o placar após defender, com o pé esquerdo, uma penalidade rematada por Effenberg, fazendo com que ela voasse por cima da meta por ele protegida. No segundo tempo o Bayern buscava o empate, e conseguiu após nova penalidade, dessa vez convertido por Effenberg, o que levou os times a uma disputa de prorrogação, onde o status quo se manteve, e por fim culminou em uma acirrada disputa de pênaltis para definir quem, afinal, era a melhor equipe europeia da temporada.

A disputa foi tensa. O Valência forjou uma vantagem com Cañizares defendendo a primeira cobrança, batida pelo brasileiro Mauro Sérgio. Ele ainda parou mais um arremate da equipe bávara, no entanto Oliver Kahn defendeu três penalidades, venceu o prêmio de Melhor Jogador em Campo, e foi o grande responsável por levar a equipe de Munique à conquista do tetracampeonato, almejado por décadas pelos torcedores auri-rubros.

Como não poderia ser diferente, os jogadores do Bayern comemoravam ululantemente, pulavam e se abraçavam efusivamente pela glória alcançada e por escreverem seu nome na história da competição. Exceto Kahn, que caminhou até onde Cañizares soçobrara sobre o gramado, cabisbaixo, cobrindo a cabeça com as mãos e escondendo as lágrimas.

Cañizares não chorava pela derrota. Era um jogo, alguém teria que perder, indistinta e inevitavelmente. Ele chorava por uma perda muito maior, irreparável, diferente de uma mera final de Champions League: no intervalo da partida ele recebera a lúgubre notícia do falecimento de sua mãe. Santiago tivera forças o suficiente para não se deixar abalar durante a partida, em momento algum deixou seus companheiros na mão e praticou uma partida invejável, esbanjou uma frieza e concentração. Suas mãos não tremeram e ele, ao que parece, simplesmente abstraiu que recebera aquela notícia, procrastinara o sofrimento, batalhara até o último instante, até que o derradeiro apito finalmente despejou em suas costas todo o peso de tamanho pesar. Ela já estava internada e Cañizares ficara inclusive relutante de viajar para jogar e deixa-la só.

Naquele momento Kahn desconstruiu completamente sua fama de rude e estereótipo de fleumático, foi até Cañizares e o consolou. Não é certo, mas o que se diz é que as palavras proferidas pelo alemão ao espanhol foram as seguintes: “Cani, não chore. Sua mãe está te assistindo lá de cima, e certamente está orgulhosa de ser a mãe de um goleiro lendário, como você é”.

 

Essa fala de Kahn pode muito bem não ser verdadeira, não existem confirmações oficiais dos personagens da história sobre as palavras ditas naquele momento, mas independente de quais tenham sido, as palavras se perdem no ar, o momento, todavia, entra para a história. Devido à comovente cena preludiada por sua ação, Kahn foi agraciado pela UEFA com uma taça Fair Play.

Em um mesmo dia Cañizares sofreu duas dolorosas derrocadas, mas mostrou naquele momento de tristeza que quanto mais forte é o golpe, mais a face do vencedor triunfa. Mostrou que o futebol, afinal, não se resume à competição pura e simples, mas é um espelho da sociedade, e, porque não, um prisma que desnuda todos os aspectos do ser humano, e uma força motriz que, mesmo que num curto espaço de tempo, faz com que se possa esquecer de tudo e o mundo se resuma às quatro linhas de cal.

 

, , , , , , ,

About Gustavo da Silva Bezerra

View all posts by Gustavo da Silva Bezerra →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confirme que você não é um robô. *