Lula Ferreira: “O objetivo de Franca é sempre estar nos lugares mais altos”

Formado em educação física, Aluísio Elias Ferreira, o Lula, 64 anos, é um dos treinadores mais experientes e vitoriosos do basquete brasileiro. Ele conquistou títulos por onde passou. Seja em Ribeirão Preto, Brasília e com a Seleção Brasileira – onde foi técnico de 2003 a 2007, sendo bicampeão Pan-Americano (2003 e 2007) e campeão da Copa América em 2005.

Lula Ferreira aceitou o desafio de comandar a equipe de Franca em 2012. A cidade é considerada “a capital brasileira do basquete” e o time já revelou grandes talentos para a modalidade. Para a temporada 2015/2016 o desafio é ainda maior. Comandar um grupo muito jovem e buscar uma boa campanha no Novo Basquete Brasil (NBB).

O treinador conversou com o Esquema de Jogo e falou sobre diversos assuntos. Entre eles, o atual elenco de Franca, as jovens promessas, o desenvolvimento do basquete no Brasil, as categorias de base e a questão de apoios e patrocínios. Confira:

Esquema de Jogo: Você tem em mãos um elenco bem jovem no time de Franca. Como tem sido essa experiência? Há muita diferença em lidar com jogadores mais jovens do que com um elenco mais experiente?

Lula Ferreira: Já lidei com muitos jogadores jovens em minha carreira. É uma tarefa que gosto muito de fazer, pois acho que o jogador tem o momento da carreira onde pode se tornar um atleta comum ou com extrema qualidade. Eles precisam de ajuda e um cenário para que consigam desenvolver essa qualidade. Quando se trabalha com atletas experientes, o enfoque do basquete é o mesmo, mas do jogo é outro, por que eles já têm conceitos adquiridos. Para jovens é preciso passar conceitos diferentes. Não é mais fácil, nem mais difícil, somente diferente.

Qual a sua expectativa em relação ao desempenho da equipe no NBB? O objetivo é pelo menos conseguir uma vaga nos play-offs?

O objetivo de Franca é sempre estar nos lugares mais altos. Vamos mirar no G4, mas sabemos que é difícil. Vamos buscar classificação internacional, pelo menos no G6. A Sul-Americana foi importante para o elenco, pela experiência internacional. Não podemos recuar dessa conquista.

A equipe de Franca acabou de disputar a fase semifinal da Liga Sul-Americana, realizada na Venezuela. A vaga na grande final não veio, mas a oportunidade de atuar em um torneio internacional serviu como um grande aprendizado para esse elenco jovem?

Não tenho dúvidas disso. Sabíamos que enfrentaríamos equipes de maior nível técnico. A passagem para a final era muito difícil, mas o time se portou bem. A experiência internacional foi muito proveitosa, jogos em outro país, arbitragem internacional e a disputa da vaga entre dois brasileiros para classificar para a Liga das Américas. Embora o resultado esportivo tenha sido de derrota, a experiência agregada valeu muito.

Um dos mais experientes dessa equipe é o Nezinho, que você já teve a oportunidade de trabalhar em Ribeirão Preto, Brasília e na Seleção Brasileira. Qual a importância dele para a equipe? Ele já pode ser considerado como a voz do treinador em quadra?

A importância dele é muito grande por ele ser um líder dentro de quadra, possuir uma experiência muito grande pelas conquistas que já teve na carreira e também por ser um armador. Ele jogando bem, o time acaba indo bem, pois ele coordena as ações do time. A participação dele na equipe é muito valiosa.

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Desse elenco de Franca, acha que um ou alguns dos jovens jogadores podem ter um futuro promissor no basquete brasileiro?

Acho que vários deles. Já demos mostra que a base francana produz muitos jogadores de qualidade, como o Lucas Mariano e o Léo Meindl, duas grandes revelações e que estão inclusive na seleção brasileira.

Hoje temos o Antônio, Pedro, João Pedro que fazem parte do elenco e já ajudam bastante. Em pouco tempo, eles estarão no cenário nacional e internacional.

Você teve uma experiência como diretor de basquete e inclusive foi um dos responsáveis pela formatação e criação do Novo Basquete Brasil (NBB). Hoje você pode afirmar que foi um trabalho de sucesso? O NBB está consolidado e a tendência é só evoluir?

Tive a honra de trabalhar na Liga Nacional de Basquete (LNB). O mérito é dela ser uma entidade organizada pelos clubes e voltada para atender os clubes, por isso tem tanto sucesso. Tenho muito orgulho em ter participado desse trabalho junto à entidade.

A falta de patrocínio e apoio é o fator mais grave que impede que o basquete brasileiro evolua e volte a figurar entre as modalidades preferidas da população?

Acho que o basquete brasileiro, assim como todas as modalidades, tem que se adequar a uma realidade que vem mudando nos últimos anos. O esporte cresceu muito e se voltou para o patrocínio como única entrada de dinheiro. Esse conceito de administração precisa ser revisto, por que sem patrocínio não consegue ser montado um time. É preciso acionar fontes de recursos alternativas, para que o patrocínio não seja o único meio de provir dinheiro.

Muitos que trabalham com o basquete dizem que todos os patrocínios e apoios acabam indo para o futebol e os outros esportes são deixados de lado, você concorda?

O patrocínio vai onde ele tem retorno. E o futebol possui uma força que as outras modalidades não têm. Você tem que agir para ter o seu espaço e não competir com essa modalidade que é querida no mundo inteiro.

E em relação às nossas categorias de base, acha que o trabalho está sendo bem feito?

Acho que tem muito trabalho bem feito, mas precisa haver uma unidade maior para que todos sejam bem feitos. Falta apoio e orientações para os técnicos que trabalham na base, que é um trabalho importante. Muitas vezes, os técnicos têm muita qualidade, mas não conseguem desenvolver da forma como precisa ser feito.

A base é uma categoria formativa e não competitiva. E na maioria das vezes ela é tradada desse jeito: jogam para ganhar e não formar jogadores. É uma diferença gigante entre um critério e outro.

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Você teve a oportunidade de treinar a seleção brasileira. Você faria algo diferente hoje do que fez naquele período?

Acho que cada momento você tem um cenário para tomar atitudes. Naquele ano tive as atitudes correspondentes àquele período. Não é possível fazer uma analogia de época.

Avalia como positivo o trabalho que o Rubén Magnano vem fazendo no comando da seleção?

Altamente positivo. Ele tem experiência e conquistas importantes. Possui uma cultura de basquete argentina muito mais próxima da europeia do que da sul-americana. Isso mudou a mentalidade da seleção e dos jogadores.

Teve momentos bons e ruins, mas, mais do que o resultado esportivo, ele criou uma mentalidade para a equipe, o país e a seleção.

Na sua opinião o Brasil tem chances de brigar por uma medalha nos jogos do Rio-2016?

Tem todas as chances, só que as Olimpíadas têm momentos cruciais. Existem partidas eliminatórias que valem medalha ou podem fazer o time despencar para colocações distantes dos primeiros lugares. É um linear muito curto entre a glória de uma medalha e uma classificação intermediária.

O Carlos Renato dos Santos, ex-árbitro e hoje comentarista, afirmou recentemente que você além de treinador é também educador. Você se considera assim?

A minha formação é de professor de educação física. Durante muitos anos exerci essa profissão. A alma de professor nunca te abandona. Você olha para situações competitivas com olhar de formação e um olhar pedagógico. O técnico é um formador de pessoas e para isso precisa ter um olhar educacional. Nunca pode se perder a alma de professor, embora tenha que olhar para o resultado esportivo.

Tive a honra de trabalhar com o Renatinho, que também é um professor, em entidades de ensino e tenho certeza de que esse olhar pedagógico também o auxiliou muito em sua brilhante carreira de árbitro internacional.

No futebol, muitos dizem que as equipes argentinas são mais estruturadas taticamente do que as brasileiras. No basquete, você tem essa percepção ou acha que os dois países estão no mesmo nível nesse aspecto?

Acho que taticamente a Argentina é superior a nós, por que a filosofia de jogo deles contempla a parte tática como primordial. A individualidade no Brasil prevalece em relação à tática. O Brasil evoluiu muito nesse aspecto, mas ainda não está no mesmo nível da Argentina.

Crédito das fotos: Franca Basquete

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