Jamelli: “O Santos de 95 resgatou o futebol arte”

Paulo Roberto Jamelli Júnior, o Jamelli, surgiu para o futebol atuando pelo São Paulo Futebol Clube. O meia ganhou destaque na final da Copa São Paulo de 1993 ao anotar três gols na vitória sobre o rival Corinthians por 4 a 3 no Pacaembu lotado. O jogo é considerado por muitos como a melhor decisão da história do campeonato.

Por conta da concorrência no forte time tricolor de Telê Santana dos anos 90, Jamelli foi buscar espaço no Santos, onde, segundo suas próprias palavras, teve o melhor desempenho por um clube brasileiro, que o levou a conquistar o vice-campeonato do Brasileirão de 1995.

“Aqui no Brasil foi o meu melhor rendimento, tanto que eu ganhei a Bola de Prata e fui para a Seleção Brasileira jogando pelo Santos. Foi minha grande decepção por não ter sido campeão, mas pessoalmente foi meu melhor ano”, destaca.

Suas boas atuações na equipe santista o levaram ao exterior, onde atuou com destaque no Zaragoza, da Espanha. Após pendurar as chuteiras em 2007, Jamelli trabalhou como gerente de futebol em três equipes brasileiras: Barueri, Coritiba e Santos.

Em 2012, Jamelli inicia sua carreira de treinador, comandando o Marcílio Dias por quatro jogos no Campeonato Catarinense. Atualmente trabalhando com uma empresa de marketing esportivo, o ex-atleta se prepara para voltar a ser técnico e aguarda propostas para iniciar um novo projeto.

Em entrevista exclusiva para o Esquema de Jogo, Jamelli fala sobre seu desejo de voltar ao futebol e os fatos marcantes de sua carreira. Confira:

Jamelli 2Esquema de Jogo: Como treinador, você ficou apenas quatro jogos no Marcílio Dias. Por que você ficou  pouco tempo?

Jamelli: É o grande dilema que temos no futebol brasileiro. A gente faz um projeto, uma programação a médio e longo prazo, mas se os resultados não aparecem a primeira coisa é mudar o treinador. A gente está vendo vários exemplos, como o que aconteceu no Cruzeiro, que tinha o Marcelo Oliveira, o Flamengo também, que já mudou de técnico três vezes, é a história do futebol brasileiro. A gente faz um bom trabalho e enquanto os resultados vão aparecendo tudo é bom, tudo é legal, mas se começa a ter problema de resultado a primeira coisa que o dirigente faz é trocar o treinador. Quando a gente chegou lá (Marcílio Dias) o time estava sem estrutura nenhuma, nós montamos tudo, levamos desde patrocínio de material esportivo até o programa de sócio-torcedor, foi muito mais do que eu ir como treinador. Eu usei toda a experiência que eu tinha como gestor para fazer o time funcionar, mas aí os resultados não aparecem e tudo muda, já bate o desespero, mas é o que acontece no Brasil, não tem como.

EJ: Essa instabilidade que você está falando não é algo que te faz pensar em não seguir como treinador?

J: Não, eu estou sabendo o que eu vou enfrentar, acho que todo profissional que começa a trabalhar como treinador, principalmente aqui no Brasil, sabe que vai ter essa dificuldade, essa instabilidade é normal. Poucos clubes mantém o treinador durante dois, três anos.

EJ: Como dirigente você trabalhou no Barueri, Coritiba e Santos. Como é que era a sua atuação nesses três clubes?

J: A função era exatamente a mesma, ser gerente de futebol. Cada clube tem uma nomenclatura para isso, em alguns lugares se chama coordenador, superintendente, mas é a mesma coisa, é a gestão da parte profissional, o relacionamento com a diretoria, com os jogadores, com a torcida, com o técnico, cuidar de toda a programação. O meu trabalho foi o mesmo nos três clubes, ou seja, fazer a gestão da equipe profissional, desde a formação do elenco, contratação de jogadores, contração de comissão técnica, a programação da temporada, o dia a dia, um modelo de planejamento para a temporada e tudo o que envolve de fazer isso acontecer no dia a dia.

EJ: No Coritiba muitos consideravam que você estava fazendo um bom trabalho.  O que exatamente aconteceu para você sair?

J: O cargo de gerente de futebol é um cargo de confiança, você responde para um diretor de futebol e um presidente. Quando essa confiança começa a ter muita interferência no trabalho fica difícil continuar. No Coritiba foi mais uma questão de mudança de pensamento, tinha um treinador e uma comissão, de repente essa comissão começou a não dar resultado, o presidente achou que deveria mudar a comissão, aí tinha um comitê de gestão e a coisa foi andando, mas o trabalho foi excelente, foram quase dois anos de bons resultados. Muitas vezes o torcedor vê só o resultado dentro de campo, mas o gestor  tem que ver não só se ganhou um título, mas o quanto o time revelou da base e o quanto o clube foi valorizado. A equipe vendeu três jogadores para o exterior, um foi revelação e subiram cinco, seis, sete meninos da base para o profissional. Então, não é só o resultado dentro de campo e ganhar título, eu acho que é a parte de administração, como que é o organograma, a gente tinha uma análise de desempenho, olheiros para trazer novos jogadores, como que era a parte de estrutura, como que era a recuperação dos jogadores, enfim, não é só dentro de campo. Muitas vezes a imprensa e o torcedor só veem se o time foi campeão ou não.

EJ: E o Coritiba revelou muitos jogadores enquanto você esteve lá, né?

J: No Coritiba aconteceu algo parecido com o Santos também, foi uma dobradinha que deu muito certo entre eu e o Dorival. Desse time do Coritiba saiu o Keirrison, o Pedro Ken, o Marlos, Henrique, Rafinha, o Vanderlei, que hoje está no Santos. Ganhamos o título paranaense dentro da arena do Atlético Paranaense. Assim foi com o Santos em 2010, que era um time que revelou muita gente, como Neymar, Ganso, Wesley, Zé Love, o Alex Sandro, o Danilo, a gente trouxe o Arouca, o Robinho voltou, teve o André também, o Rafael goleiro, muita gente que saiu dali para o exterior. Foi um trabalho de revelação de jogadores e o time do Santos conseguiu ganhar muito dinheiro com a venda de jogadores.

EJ: Você citou o Ganso. Em 2010 ninguém esperava que ele estaria onde está hoje, talvez se pensasse nele na Europa e jogando Champions League. Na sua opinião, o que acontece com ele?

J: Eu acho que o Ganso é um craque, um jogador diferente, um meia que você não encontra no futebol brasileiro e nem mundial. É um cara que tem uma maneira de jogar muito diferente da maioria, é um jogador que precisa de um time que jogue bem para ele jogar bem também, porque ele tem uma característica diferente do Neymar, que em uma jogada dribla cinco e faz o gol, o Ganso não vai fazer isso. Agora, se ele tem jogadores bons ao lado dele ele vai botar os caras na cara do gol dez vezes durante um jogo porque ele é muito inteligente, tem visão de jogo e faz os caras que estão do lado dele jogarem melhor. É um cara que não resolve um jogo sozinho, tem que ter pessoas ao lado dele para fazer ele jogar bem.

EJ: Você acha que essa instabilidade que o São Paulo vem vivendo nesses anos recentes é que acaba prejudicando o futebol dele?

J: Tenho certeza disso. Ele é um cara que se tivesse continuado jogando com um jogador como o Neymar, com dois volantes que pudessem dar sustentação para ele, como era o Arouca e o Wesley, laterais que passem e com liberdade para jogar, tenho certeza que ele estaria jogando muito melhor do que está hoje. O que não pode é tirar o Ganso das características dele. Ele é um cara super técnico, fora de série e que tem que jogar naquela região intermediária, com liberdade de criar, jogando por trás e dando assistência. O que não pode é querer fazer o Ganso marcar, correr, porque não é a dele.

EJ: Muita gente defende que o Ganso jogue mais recuado, igual o Pirlo. Você é totalmente contrário a essa ideia?

J: Eu acho que você vai matar o Ganso. Se você quiser que ele jogue muito atrás, como um segundo volante ou que ele marque muito, aí você vai tirar ele da característica dele e não vai jogar bem. Ele vai continuar sendo um bom jogador, mas não vai ter esse papel de diferencial no jogo, que é o que todo mundo espera de um camisa 10, que é o que o Jadson faz hoje no Corinthians, que o D´Alessandro faz no Inter, que o Lucas Lima faz no Santos. Eu acho que esses jogadores tem que ter um tratamento diferente para eles poderem fazer a diferença no jogo.

EJ: Você começou jogando no São Paulo, ganhou grande destaque na final daquela Copa SP contra o Corinthians em 1993, que para muitos é a melhor final de Copinha da história, mas no Tricolor você permaneceu pouco tempo no profissional. Por que você não ficou mais tempo?

J: Acho que aquela final foi uma das mais emocionantes não só da Taça São Paulo, mas de todos os tempos, que foi uma final que envolveu dois grandes clubes de São Paulo e com o Pacaembu lotado. Aquele jogo foi 4 x 3,  é difícil ter uma final como aquela, com muitos gols e cheia de alternativas. Foi emocionante e foi o jogo que me levantou para o time de cima. Eu já estava jogando um pouquinho no time profissional, já treinava algumas vezes com o Telê, mas ali eu tive a oportunidade de ter meu primeiro contrato. A questão de eu não ficar muito tempo no São Paulo foi uma questão no profissional, porque eu fiquei quase oito anos na base, passei por todas as categorias, era um time que há muito tempo jogava junto. Aquele time chegou em três finais de Copa SP, tinha o Rogério Ceni, Caio Ribeiro, Sérgio Baresi, André Luiz, Pavão, Juninho Paulista, Guilherme, Doriva, jogávamos junto desde os 13, 14 anos. Acontece que tinha muito jogador bom que não tinha espaço no time de cima porque lá tinha Cafu, Raí, Palhinha, Leonardo, Muller, Toninho Cerezo, Zetti. A molecada não tinha espaço para jogar porque o time principal era praticamente a base da seleção brasileira, por isso que eu fui buscar espaço no Santos, porque no São Paulo realmente era difícil de jogar. Aí teve a oportunidade de eu sair para o Santos, que tinha um projeto legal, que passava por um momento difícil, mas tinha era um time bom, tinha Giovanni, Gallo, Macedo, Narciso, Robert. Eu tive que tomar uma decisão na minha vida, ou continuar sendo um reserva esperando uma oportunidade de ser titular, o que poderia levar um mês ou um ano, ou ir para outro clube. Fazia muito tempo que o Santos não tinha um time para chegar em uma final e só não foi campeão brasileiro pela questão do árbitro, senão a gente tinha sido campeão brasileiro.

Jamelli comemora o gol do título da Copa SP de 93
Jamelli comemora o gol do título da Copa SP de 93

EJ: O Rogério Ceni contou um fato engraçado recentemente, ele fez uma comparação da época que ele jogava na base com os meninos de hoje. Ele falou que na época dele comia “pão com as baratas passando por cima”. Você também viveu coisas assim?

J: Eu vi a entrevista, eu acho que ele exagerou um pouco, não era assim também, mas não era muito longe disso. Não era pão com barata, mas não era pão fresquinho, o alojamento não era um hotel cinco estrelas que é hoje, não era uma situação de muito conforto, mas também não era uma situação tão ruim assim. O São Paulo tinha um diferencial muito legal. Eu cheguei a morar uma época com o Rogério no Morumbi, eu não ficava direto lá, mas como eu morava no Tatuapé, muitas vezes não dava tempo de eu voltar para a minha casa, então eu ficava no Morumbi. Não era um mar de rosas mesmo, era bem diferente do que é hoje. Na época tinha a lei do passe, o que o clube oferecia você tinha que pegar e se você não pegasse ficava sem clube nenhum. Hoje se você não renova com um clube você vai para outro, naquela época se você não assinasse você ficava encostado lá.

EJ: Com relação ao Santos, você citou a final de 95. Foi a grande decepção da sua carreira por conta do erro de arbitragem?

J: Olha, foi a grande decepção quanto a título, porque quanto a desempenho, aqui no Brasil acho que foi a minha melhor fase. Fora do Brasil acho que eu tive anos melhores, como no Zaragoza, mas aqui foi o meu melhor rendimento, tanto que eu ganhei a Bola de Prata e fui para a Seleção Brasileira jogando pelo Santos. Aquele time merecia ser campeão, porque resgatou o futebol arte, o futebol alegre, o futebol para frente, resgatou o Santos que há muito tempo não dava uma alegria para a torcida, que passava por um momento difícil, e ali acho que foi a grande virada do clube. Eu acho que só teve o time do Robinho e do Diego porque teve aquele time de 95.

Time do Santos vice-campeão brasileiro de 95
Time do Santos vice-campeão brasileiro de 95

EJ: Com relação à sua passagem pelo Zaragoza, você afirmou na época que teve que optar entre ir jogar no exterior e ter a estabilidade financeira ou a Seleção Brasileira. Você se arrepende de algo?

J: Foi uma decisão mútua. Falando desse jeito parece que quando você vai para o exterior você abre mão de ir para a seleção, esses são os extremos, mas foi mais ou menos parecido com isso, porque foi uma oportunidade que eu tive, de ir para o Japão primeiro, para o Kashima Reysol, mas a ideia já era ir para a Europa, tinha quase que um pré-contrato assinado com o Zaragoza, só fui para o Japão para dar tempo de tirar a cidadania italiana e entrar na Europa como comunitário. Eu tive realmente que optar entre tentar ficar no Brasil, com 22 anos eu era capitão do Santos, o time bem, atual vice-campeão brasileiro, melhorando, e poderia ter ficado. Não me arrependo, tanto na parte profissional como na minha vida pessoal, porque junto com meus filhos e minha mulher tive a oportunidade de conhecer países diferentes, de viver em culturas diferentes, hoje meus filhos falam inglês fluente, espanhol fluente, português fluente, um pouquinho de japonês, conheceram uma vida fora do Brasil, só que tem o contraponto também, porque eles não tiveram nenhum amigo de infância, porque praticamente a cada dois ou três anos eles mudavam de colégio, mudavam de país, mudavam de sociedade para conviver, mas são as decisões que você tem que tomar, não dá para você ter tudo.

EJ: Você tentou a carreira política no ano passado. Caso eleito, o que você tentaria mudar no futebol brasileiro?

J: Eu acho que não só no futebol, mas tentativa mudar o esporte brasileiro como um todo. O esporte universitário nos Estados Unidos eu acho que é um exemplo que funciona. No sistema americano, principalmente nos esportes olímpicos, o atleta tem uma bolsa, o cara é jogador de basquete e é um advogado, jogador de tênis e administrador, lutador de judô e engenheiro, então acho que essa parte da universidade e da escola é muito válida. Eu tentei a carreira política porque eu acho que tem um momento na nossa vida que a gente tem que tentar devolver um pouquinho do que o esporte te deu e foi isso que eu tentei fazer. Eu acho que a gente tem que ter mais ex-atletas dentro da política, porque o cara que tem o DNA esportista tem muito a agregar de valores, de respeito, de honestidade, de transparência, que é o que eu acho que está faltando hoje na política no Brasil. Eu acho que a gente tem que apoiar o Romário na carreira que ele está tendo, ele é o presidente da CPI do Futebol hoje, está botando o dedo na ferida, está tentando moralizar não só a CBF e o futebol brasileiro, mas acho que isso vai reverter nos outros esportes também, então foi uma tentativa que eu fiz, de ser candidato a deputado estadual.

Jamelli em ação pelo Zaragoza
Jamelli em ação pelo Zaragoza

EJ: O seu foco hoje é ser treinador?

J: Sim. Eu estou tirando o certificado da CBF de treinador, estou fazendo vários cursos, indo a seminários, fazendo observações em clubes tanto do Brasil quanto de fora, conversando com muitos treinadores, ampliando meu repertório de conhecimentos tanto taticamente como fora do campo. O diferencial que tem um treinador hoje é conseguir unir a parte técnica e psicológica com o grupo andando bem. Eu estou correndo atrás e falando com muitas pessoas. O meu foco mesmo, desde que eu saí do Santos como gerente, é a minha carreira como treinador. Estou esperando algum projeto bom para esse ano ainda ou senão no ano que vem nos campeonatos regionais.

Crédito das fotos: jamelli.com.br

Foto de Capa: www.grandearea.com.br

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